O açafate-de-prata - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O açafate-de-prata
O açafate-de-prata
Planta ornamental, nativa das regiões mediterrânicas e da macaronésia

O céu estava plúmbeo e chuviscava. O tempo não se mostrava nada consentâneo com a antevéspera de São João. Mesmo assim, ainda apareceram quatro caminhantes para efetuar o tradicional passeio pedestre organizado pela Sociedade Portuguesa de Naturalogia. O percurso começava na Fonte da Telha, junto às instalações militares da NATO, depois descia-se à praia, caminhava-se pela areia até à margem norte da Lagoa de Albufeira, onde haveria uma pausa para tomar banho e merendar. O regresso seria pela mata até ao ponto de partida. Qualquer coisa como 14 ou 15 quilómetros. Entre desistir e seguir em frente, acabou por vencer a segunda hipótese, confiando-se no famoso provérbio «a sorte favorece os audazes». Mas a chuva, embora do tipo molha tolos, tornou-se persistente. Optou-se então por caminhar pelos aceiros que delimitam o perímetro militar no sentido norte-sul e depois voltar ao início pela outra parte. Não vimos o oceano nem a lagoa e de guarda-chuva aberto, apenas fizemos 7 ou 8 quilómetros, mas valeu a pena porque o passeio foi diferente e teve os seus encantos.

A circunstância de termos de olhar permanentemente para o chão determinou a contínua observação das espécies silvestres que nos rodeavam naquela senda pouco habitual. E que prazer não tropeçar em plásticos nem em lixo. Para além da chuva, o que bulia com o sentimento dos visitantes eram aqueles avisos em «idioma americano», escritos a vermelho, prevenindo que, se passássemos a vedação militar, corríamos perigo de morte. Mas nós íamos em missão de paz e em plena harmonia com a natureza.

Pinheiros bravos e mansos, acácias, tojos, aroeiras, camarinhas, rosmaninhos, bocas-de-lobo, perpétuas-das-areias, tomilhos, sargaços de flor amarela, lobulárias marítimas, scabiosas, silenes, eufórbias, buglossastroviscos e tufos de líquenes verde-claros, indiciadores da ausência de poluição, ornamentavam o nosso percurso. Muitas plantas encontravam-se intensamente floridas, como era o caso dos tomilhos e das lobulárias, o que determinou a escolha de uma delas para organizar a presente croniqueta.

Escolhi a Lobulariamaritima, conhecida popularmente por açafate-de-prata, escudinha, flor-de-mel ou alisso. Os ingleses chamam-na “carpet of snow”, ou seja, “tapete de neve”. Trata-se de um género da família das crucíferas ou Brassicaceae que possui cerca de 3200 espécies espalhadas por todo o mundo. Devo dizer que tive alguma dificuldade em identificar a planta e só o consegui, consultando o livro Guia de Campo das Flores da Arrábida do Engº Gomes Pedro. O problema é que existem duas espécies muito parecidas e ambas são crucíferas oriundas da bacia mediterrânica: a nossa Lobulariamaritima e a Iberisprocumbens, conhecida por assembleias. O pormenor mais saliente que as distingue é o da forma das folhas que, nesta última, são espatuladas e carnudas.

O açafate-de-prata é uma planta anual, raramente perene, rasteira, formando uma pequena moita prostrada. O seu caule é ligeiramente lenhoso, ramificado desde a base, atingindo em média 20 cm de altura. As folhas são alternas, estreitamente lanceoladas e sésseis. O encanto principal da planta é constituído pelas inflorescências, formando cachos densos que tapam completamente as folhas. As flores são pequenas, branquinhas com quatro pétalas arredondadas e anteras amarelas. Sendo agradavelmente perfumadas, lembram o odor do mel.

Prefere terrenos calcários e resiste bem ao calor e à seca, sendo, como acima se disse, nativa das regiões mediterrânicas e da macaronésia (Açores e Canárias) mas já naturalizada em zonas temperadas de todo o mundo.

A sua importância deve-se a ser uma linda planta ornamental pouco exigente, havendo, para o efeito, numerosos cultivares em resultado de hibridações que proporcionam várias cores muito atraentes e cobrem totalmente o solo dos jardins. Julga-se que o facto de abrigar insetos polinizadores favorece as produções de agricultura biológica.

São escassas as referências que encontrei relativamente à fitoterapia. Contudo, sendo uma brassicácea, deve estar isenta de componentes tóxicos e ser significativo o teor de essências sulfuradas. É apontada como diurética, atuando na redução da febre e na eliminação dos cálculos renais.

Sobre o autor

Autarca português, vice-presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Naturalogia. Autor dos livros As Plantas, Nossas Irmãs e Plantas para Curar e para Comer.