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A nobiliarquia do vocabulário
A nobiliarquia do vocabulário

«(...) Se o povo a ferreteou com a persistência percuciente da sua ironia, deva-se isso à sua nativa tendência de generalização, desde que uma minoria cheia de cobiça e vazia de escrúpulos lhe assaltou impunemente as algibeiras.... (...)»

 

 

 

 

 

Vocábulos há, frases e expressões às vezes, que, originadas no mundo culto, se achincalham ou pervertem, quando vulgarizadas nas camadas inferiores do povo. A outras, mais raramente, sucede o inverso. Ascendem das bôcas populares para as classes elevadas, e aí se afidal­gam.

Do primeiro caso temos um exemplo frisante nas palavras que, desde o início do idioma, têm designado as pessoas de profissão mercantil. Todas essas palavras têm resvalado, com o correr dos tempos, para as baixezas do insulto. De trato, na acepção de negócio, derivou a palavra tratante, aquele que negoceia. Ainda no século XVII, empregava neste decoroso sentido o cordato Jorge Cardoso. Biografando ao sábio e martirizado jesuíta Abraão de Gorgüs, assim diz: «Até q aportando naquela Ilha, sem ninguê o conhecer, alcançou licêça do Capitão delia para entrar na Ethiopia, a titulo de tratante

Se escrevesse dois séculos mais tarde, é seguro que o afamado hagiólogo não apedrejaria com afronta semelhante a memória do mártir. Porque a sua qualificação já a essa data, e não sei desde quando, servia para designar indivíduos pouco escrupulosos nas suas contas.

Mas a dupla feição do deus Mercúrio perpetuou-se em terras abençoadas pela fé cristã, Assim o demonstra o abastardamento do têrmo, que ao depois veio a substituir aquela condenada palavra. De tráfico ou tráfego, se originou trafi­cante.

Não encontro de momento citação que autorize o vocábulo na acepção natural. Mas parece-me escusado esgaravatar os clássicos. A sua significação primitiva, torna-a óbvia a sua etimologia. E não oferece dúvida que sentença idêntica à do seu antecessor lhe foi de há longos anos cominada pelo vulgo.

Semelhante depreciação sofreu o têrmo chatim, colhido pelos navegadores portugueses do século XVI na língua dravídica. A sua significação primitiva era negociante ou mercador, mais particularmente do Choromandel, como afirma o sábio Monsr. Dalgado. Das numerosas citações com que enriquece o seu monumental glossário, escolho as seguintes, que bem mostram a inofensibilidade na­tiva da palavra: «A terceira casta he dos Chatins, que são mercadores grossos, de ouro, prata, pedraria, sedas, roupas, e outras fazendas de preço.» (Couto, Déc. X, c. VI). «He de saber que êste Chatim de mercador ordinário, que isso quer dizer na Índia o nome de Chatim cresceo tanto em menêo e substância de fazenda...» (Fr. Luis de Sousa, Annaes de D. João III pág. 298.)

Deus me defenda de assacar a tôda uma classe respeitável, e mesmo à sua maioria, a culpa destas deformações se­miológicas. Se o povo a ferreteou com a persistência percuciente da sua ironia, deva-se isso à sua nativa tendência de generalização, desde que uma minoria cheia de cobiça e vazia de escrúpulos lhe assaltou impunemente as algibeiras....

....Neste mesmo momento histórico que atravessamos, eu noto com surpresa que os carroceiros, por exemplo, aspiram a trocar o têrmo que desde velhos tempos os designou, pelo pretensioso circunlóquio de «condutores de carroças». Pelo visto, supõem êles de-certo que esta mudança os eleva acima da boleia, sôbre a qual aliás já se alcandoram sobranceiros aos peões.

Não é com boa sombra que muitos lo­jistas acolhem êste título, preferindo o de comerciantes. Caixeiros e marçanos cui­dam engalanar-se com o apodo de «empre­gados de comércio». E as especificações do seu comércio também sofreram alte­rações, originadas no orgulho com que as respectivas classes engatinham pela es­cala jerárquica, quanto mais se prega por tóda a parte a igualdade democrática....

....Voltando ao pejoramento das pala­vras disignativas de profissões, ocorrem­-me ainda duas: mariola e patife. A primeira era a denominação dos moços de fretes ou moços de esquina, ainda no século XVIII, como o indica Bluteau. A segunda era definida pelo mesmo Bluteau, segundo a autoridade de Cristóvão Rodri­gues de Oliveira: «moço de ceira, que anda na ribeira levando as coisas à casa dos compradores, por aluguel.» Como se vê, os dois ofícios eram afins, como afins são as injúrias que as suas denominações implicam boje em dia .....

.... ¿E os termos que do baixo calão tendem a subir pára mais ilustres esferas? Lembra-me agora a palavra gajo e o seu feminino, que já oiço uma que ou­tra vez em boquinhas antes fadadas para delicados amavios. Se eu por acaso viver mais dez anos, estou que se desvanecerá nêsse intervalo o sentimento de repugnância que a sua enunciação ainda me inspira. 

Fonte

in Revista de Língua Portuguesa, n.º 12, Rio de Janeiro, 1912, pág. 69 e ss.), transcrito do terceiro volume da antologia Paladinos da Linguagem (edição Aillaud e Bertrand, Lisboa, 1921), organizada por Agostinho de Campos. Manteve-se a grafia e respetiva norma originais.

Sobre o autor

Henrique Lopes de Mendonça (Lisboa, 12 de fevereiro de 1856 – 24 de agosto de 1931) foi um militar, historiador, arqueólogo naval, professor, conferencista, dramaturgo, cronista e romancista português.