«Não houve batota contra os "croácios"» - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Não houve batota contra os "croácios"»
«Não houve batota contra os "croácios"»

A propósito do(s) gentílicico(s) da Croácia numa cantina em Luanda, ao jogo com Brasil, que inaugurou o Campeonato Mundial de Futebol de 2014.

 

 

Nem preciso de esconder as minhas expectativas em relação à selecção que eu gostaria que vencesse. Não vou esconder: qualquer uma das selecções africanas, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Argélia e/ou Nigéria, para mim, já seria o suficiente..

Sou angolano, africano, e nada mais natural, independentemente da (muita ou) pouca experiência que os nossos jogadores possam apresentar, permitam que eu seja um pouquinho “umbiguista”, diria o meu editor, e sonhar, pelo menos isso, sonhar, que também sou campeão do mundo, por África.

Mas os brasileiros começaram… bem (!?). Não vou comentar o penálti Apesar de tudo o que se disse e ainda se diz à volta daquele apito nipónico, a verdade é que o Brasil venceu, 3-1. Ponto final!

E isso desagradou a muita gente e a Man Ró, um vizinho e amigo de Viana, que se irritou com o dono da cantina onde assistíamos ao jogo de abertura e protestava contra o que muitos consideravam “batota”.

«Qual batota qual quê?», exclamou Man Ró. «Eu vi e vocês também. Não houve batota contra os ‘croácios’», reforçou.

A confusão agudizava-se ainda mais à medida que nos aproximávamos do fim da partida e os palavrões saíam de todas as direcções como se de Sobibor se quisessem livrar.

«Nós também estamos a apoiar o Brasil mas não aceitamos essa injustiça. A Croácia não merece isso», disse um outro muito contundente.

E eu concordo, nem a Croácia nem os croácios, ou melhor, nem os croatas merecem injustiças. Embora o nome do país seja Croácia, a pessoa que lá nasce é croata, tem nacionalidade croata, que entra no português por via do francês croate.*

Bem que a mulher de lá podia ser ‘croácia’, tal como a mulher que nasce na Líbia é ‘líbia’. O recomendado para designar quem nasce nesse país europeu ainda é mesmo ‘croata’. Claro que nós também podíamos ser chamados de ‘angolenses’ ou ‘angoleses’, mas não. Somos angolanos.

 

N.E. – A forma croácio – equivalente a croata – é atestada nos principais dicionário e vocabularios, brasileiros e portugueses. Por exemplo, aquiaqui, aqui e aqui.

 

Outros textos do autor

*N. E. – Na verdade, são vários os dicionários gerais (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia de Ciências de lisboa, Dicionário Houaiss) que registam a forma croácio. Observe-se, porém, que, nas referidas fontes, esta forma remete sempre para a entrada croata, donde se infere que é a esta última que se deve dar preferência. Anote-se ainda que, em relação ao português de portugal,  o Código de Redação Interinstitucional, que se aplica à documentação produzida na União Europeia, só regista croata.

Fonte

in semanário Nova Gazeta, de Luanda, publicado no dia 19 de junho de 2014 na coluna do autor, Professor Ferrão. Manteve-se a grafia anterior ao Acordo Ortográfico, seguida ainda em Angola.

Sobre o autor

Edno Pimentel é professor do ensino secundário em Luanda e assina no jornal Nova Gazeta a coluna Professor Ferrão sobre os usos da língua portuguesa em Angola.