«Kota, emagrece só, por favor!» - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Kota, emagrece só, por favor!»
«Kota, emagrece só, por favor!»

Há grupos sociais que têm o seu próprio socioleto (ou gíria), e alguns dos termos por eles usados podem levar a más interpretações de quem não partilha o mesmo referente semântico. É o caso de emagrecer, um verbo tão escutado na comunicação social a propósito de dietas e de alimentação saudável, mas que toma um sentido diferente para os taxistas de Luanda. Assim nos conta Edno Pimentel neste texto publicado no semanário angolano Nova Gazeta.

 

«Cuca de cima, Cuca de cima», chamava um cobrador de um candongueiro que fazia o trajecto do São Paulo à "Cuca", por volta das 22 horas. A esta hora, geralmente há escassez de táxis e muitos "chicos espertos", como diz o Paulo Miranda, aproveitam-se da situação para tirar sempre mais algum de quem, com muito esforço, se sacrifica para conseguir os cem "contos" da passagem.

«Cuca de cima são 200», repete o cobrador. «Só tenho 100, assim não me podes ajudar», pede uma jovem que tinha apenas 100 kwanzas e pretendia chegar até ao Kikolo. No carro, Toyota Hiace, já havia alguns passageiros, entre os quais uma senhora um tanto… forte fisicamente e ocupava um pouco mais de espaço que, para o cobrador, ainda dava jeito para mais uma pessoa.

«Kota,¹ emagrece só, por favor!», orienta o cobrador. «Não entendi, moço. Mandaste-me emagrecer, foi isso?», responde indignada, suscitando o apetite à discussão de outros passageiros, que já não podiam de tanta raiva, por terem de pagar 200 kwanzas pela linha curta.

«Esses miúdos me dão uma neura», aproveita um mais velho que também era meio… gordinho. «Pedir para emagrecer é mal? Se a senhora não emagrecer um pouco, como vai essa moça se sentar?», insiste o cobrador.

«Quer dizer, a pessoa paga 200 contos», acrescenta o mais velho, «… e ainda tem de suportar as vossas faltas de respeito, não é? Seus b***», irrita-se.

«Então, pronto. Se a mãe senhora não quer emagrecer um pouco, pode descer», avisa.

«Ela não desce e quero ver o que vais fazer», desafia o kota. «Então encosta aí, oh!» refila. «Custava-te pedir para eu encostar, ao invés de me mandares emagrecer?»

«E foi o que ele fez, meus senhores», intervém o motorista, já muito tarde. «Ele não vos quis ofender. Emagrecer, para nós, os taxistas, quer dizer encostar, apertando-se um pouco, de forma a permitir que mais passageiros se possam sentar», esclarece.

«Mesmo assim, essas vossas línguas não servem para toda a gente. Para uma pessoa gorda como eu, que não entende nada disso, pode se chatear», alerta.

«Está bem, meus kotas, peço desculpas. Agora que já nos entendemos, por favor, minha senhora, emagrece só!»

¹ A palavra deveria ter c inicial, e não k. No entanto, espera-se que o Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa fixe a ortografia a adotar com vocábulos de origem local nos países africanos de língua oficial portuguesa.

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Fonte

In jornal Nova Gazeta, de Luanda, publicado em 22 de agosto de 2013 na coluna do autor, Professor Ferrão. Manteve-se a grafia anterior ao Acordo Ortográfico, seguida ainda em Angola.

Sobre o autor

Edno Pimentel é professor do ensino secundário em Luanda e assina no jornal Nova Gazeta a coluna Professor Ferrão sobre os usos da língua portuguesa em Angola.