Jogo de palavras - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Jogo de palavras

Viagem ao futebolês, a língua dos comentadores desportivos portugueses

O estádio apresenta uma considerável moldura humana. As equipas, que sabem ocupar os espaços no terreno de jogo, primam pela lateralização e por uma óptima utilização das faixas, com intervenientes escalonados num 4X2X3X1 clássico.

Importa-se de repetir? Qualquer gramática atesta que estamos perante a língua portuguesa, mas numa vertente técnico-táctica. Bem-vindos ao mundo dos comentadores de futebol, líderes de audiências com tempo quase ilimitado de intervenção no pequeno ecrã. Onde ‘receber um passe’ se traduz em ‘futebolês’ como ‘recepcionar a bola’, esperar pelo avanço dos colegas de equipa se chama ‘temporizar’ e percorrer determinadas zonas do campo é ‘ocupar bem os espaços’. Qualquer estação televisiva nacional tem de contar com eles para garantir margem confortável de atenção no prime time.

O clássico Gabriel Alves, que popularizou, na RTP, termos como «gesto técnico perfeito» ou «leitura de jogo», entre muitos outros, tem descendentes de peso. Alguns, como Rui Santos, que ocupa, sozinho, ou num diálogo residual com o pivô da estação, mais de uma hora de emissão da SIC Notícias (programa Tempo Extra), são figuras públicas de maior alcance que os próprios jogadores.

Mas há outras figuras de culto, como Luís Freitas Lobo, considerado entre os espectadores ou treinadores de bancada da blogosfera como «o Mourinho dos comentadores desportivos». Tal como Santos, Freitas Lobo reparte alguns espaços na TV com artigos na imprensa especializada ou generalista. E tem um blogue (www.planetadofutebol.com), no qual analisa jogos, disseca tácticas e desvenda novos talentos de todos os continentes.

No programa de debate – também de 90 minutos, tal como o tempo de um jogo – em que participa, com o ex-jogador Paulo Sousa e com um convidado, na RTPN, revela um discurso tão estruturado quanto ultra-especializado. Ao falar de um possível reforço argentino do FC Porto, considerou-o «um médio ofensivo tipicamente argentino, que se disfarça de segundo avançado».

O convidado deste programa, conhecido, a preceito, como Pontapé de Saída, era Manuel Machado, treinador do Sporting de Braga, que foi ‘alvo’ recente dos Gato Fedorento no seu programa da estação pública. A brincadeira consistia em tentar entender a linguagem do técnico. Machado não acusou o toque e fazendo, no programa da RTPN, o balanço da sua passagem pelo Braga, manteve o léxico em grande nível técnico: «Enquanto clube, o Braga tem uma logística, um potencial humano e níveis organizacionais já muito elevados.»

Lucho González, médio do FC Porto, reúne consensos em qualquer canal do espectro televisivo português. Rui Santos dá-lhe nota 8 nas classificações que atribui no seu programa. É um atleta com uma «cultura táctica fantástica» e um «jogador total, para os 90 minutos».

Paulo Sousa avança outras definições deste médio das Pampas. Sousa realça a sua capacidade de «verticalizar o jogo», e «é bom com bola e sem bola». Freitas Lobo prefere realçar o valor da equipa do FC Porto. As lesões em vésperas do último jogo só iriam alterar «algumas nuances do ponto de vista ofensivo».

Mas de onde vêm as ‘triangulações’, as ‘temporizações’ ou o ‘esquema táctico’ de jogadores que, afinal, passam uma hora e meia a perseguir um ‘esférico’?

Jorge Castelo é professor de Metodologia Específica do Treino de Futebol na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa. E explica que a terminologia do futebol vem de «uma arte muito antiga, que é a da guerra». Daí que termos como ‘estratégia’ ou ‘táctica’ se gastem em abundância nas palavras de quem comunica sobre futebol.

Entre os mais e os menos especializados, há quem leia muito sobre a matéria e desenvolva uma linguagem que «tem significado para os profissionais e talvez não para os outros». Os manuais da Federação Portuguesa de Futebol podem ser uma fonte importante desta língua à parte.

Para Castelo, ele próprio com experiência nos campos de quase todo o país – foi treinador-adjunto no Benfica no final dos anos 80 e principal de muitos outros clubes –, é difícil traduzir alguns dos termos, porque eles são empregados de forma contraditória. «Há quem tente valorizar-se dizendo palavras que os outros não percebem.» Mas considera que os comentadores têm vindo, regra geral, a simplificar a linguagem. Ou, por outras palavras, a aperfeiçoar os seus gestos técnicos, ocupando melhor os espaços das audiências na Comunicação Social...

Fonte

texto publicado na revista Tabu do semanário portugués Sol, de 29 de Dezembro de 2007

Sobre o autor

Ricardo Nabais, formado pela Universidade Nova de Lisboa, é um jornalista Português. Enquanto jornalista passou pela redação de o Expresso, Jornal de Letras, City Magazine e trabalha, atualmente, no semanário Sol.