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Alguns insultos em uso na linguagem corrente e no discurso mediático, em Portugal

 

Embora já não vivamos no tempo em que os insultos eram comuns e chegava a haver competições para ver quem inventava os melhores, ainda há alguns espécimes que vamos encontrando no dia a dia. Tirando os que se referem à frequência ou tipologia da vida íntima (eventualmente sem aspirar ao rigor factual, por exemplo sobre a mãe do ofendido) os mais habituais são os que aludem a falta de inteligência: parvo, idiota, estúpido, morcão, cretino, lunático, imbecil, tonto... Têm graus de agressividade muito diferente, e o seu significado também depende do contexto. Um “és um grande parvo” atirado com dureza em princípio visa ofender, mas “não sejas parvo” pode ser uma forma simpática de não deixar um companheiro de almoço pagar a conta. ‘Parvo’ tem essa flexibilidade, e ‘estúpido’ também, até certo ponto. Já ‘cretino’ e ‘lunático’ são mais limitados. Um cretino é mesmo um cretino e um lunático um lunático, ainda que não tenham cabeça suficiente para compreender isso.

‘Idiota’ é um caso especial (eles são sempre). Ao contrário das outras palavras citadas, usa-se bastante em artigos de imprensa, cá como noutros países. Temo-lo encontrado muitas vezes a propósito de [Donald] Trump, das suas políticas e dos seus apoiantes. Até para os defender, afirmando que não são idiotas de todo — os apoiantes, não as políticas ou o próprio Trump.

A palavra tem origem na Grécia antiga, mas nós recebemo-la por via do latim. Idiotes vinha de idios (pessoal, privado), e designava pessoas que não estavam na vida pública, por não terem capacidade. Com o tempo, esse elemento desqualificativo tornou-se o essencial da palavra, estendendo-se e acabando por gerar o idiota como hoje o conhecemos.

Ao contrário do lunático, que sofre de uma condição mental adquirida – por influência da lua, que faz nascer nele conceitos fantásticos – o idiota pode ser como é desde que nasceu. Nesse sentido, é mais parecido com o estúpido. Stupere era ficar abalado, apanhado, paralisado, em virtude de algum golpe que nos atingiu. Várias destas palavras ainda hoje designam perturbação, e ‘estupefacto’ mantém a mesma ideia na versão temporária. Por contraste, a estupidez e a idiotia tendem a ser permanentes.

Cf.:  Como inventar um palavrão?20 insultos inconvenientes (e pouco conhecidos…)

Fonte

Texto publicado na revista do semanário Expresso de 1 de outubro de 2016.

Sobre o autor

Jornalista português.