Então mas o que é isto? - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Então mas o que é isto?
Então mas o que é isto?

«O fenómeno da multiplicação de "entões" costuma verificar-se principalmente em directos informativos. Funciona assim: "Estamos então aqui onde foi então cometido o homicídio, eram então duas e meia da tarde. Tenho então junto a mim o sargento Fernandes, que é então o comandante da GNR que fica então mais próximo deste local."»

 

 

Receio que o fenómeno das modas linguísticas, de que sou dedicado estudioso, não desperte mais do que desinteresse e aborrecimento nos meus leitores. Como costuma suceder com todos os chatos, essa consciência não me impede de falar sobre o assunto sempre que posso. Certas modas linguísticas ficam circunscritas a determinados meios (por exemplo, a expressão «quando assim é» quase não é usada fora do âmbito das entrevistas rápidas que ocorrem após um jogo de futebol), outras estão limitadas a uma faixa etária (é raro ouvirmos um maior de quarenta anos dizer que determinada coisa é "top"), mas há algumas que ultrapassam as barreiras da idade e da origem social, e infectam uma sociedade inteira. Foi assim com o portanto, muito frequente sobretudo durante os anos 80 e 90 (embora ainda hoje protagonize pequenos surtos), e parece acontecer cada vez mais o mesmo com uma moda que já aqui examinei, a da utilização dos verbos no infinitivo (refiro-me à razoavelmente popular formulação «antes de mais nada, cumprimentar todos os presentes», ou «em primeiro lugar, dizer que é um prazer estar aqui»).

A moda que trago hoje à consideração de todos permanece confinada a uma classe profissional, mas talvez tenha potencial para contagiar uma fatia mais larga da população. Falo da multiplicação de entões (confesso que não sei se o plural de então é entões ou entãos. Optei por entões, mas sem grande firme­za. Ocorre-me agora, além disso, que não cheguei sequer a ponderar um possível entães.)

O fenómeno da multiplicação de entões costuma verificar-se principalmente em directos informativos. O jornalista semeia entões no discurso com o duplo objectivo de ocupar tempo mas também de conferir alguma noção de urgência à matéria relatada. Funciona assim: «Estamos então aqui onde foi então cometido o homicídio, eram então duas e meia da tarde. Tenho então junto a mim o sargento Fernandes, que é então o comandante do posto da GNR que fica então mais próximo deste local.» Um passatempo divertido consiste em apostar no número de entões que determinada intervenção em directo vai ter. Estou disponível para discutir direitos de autor com a Santa Casa, na eventualidade de o Toto-Então começar a ser comercializado.

O jogo pode ser bem-sucedido porque, na verdade, a multiplicação de entões não ocorre apenas em reportagens, mas em qualquer espécie de improviso, por pequeno que seja. Por exemplo, na meteorologia («na Guarda vão estar então 18 graus»), quando alguma coisa não corre de acordo com o previsto («perdemos então o contacto com o nosso enviado especial») e até nas despedidas («desejo-lhe então um bom fim-de-semana»). Fica então a sugestão para podermos então jogar então. 

Fonte

crónica do autor na revista Visão de 23/03/2017, tendo-se respeitado a norma ortográfica do original.

Sobre o autor

Licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica, começou a sua carreira no Jornal de Letras e escreve na revista Visão. Cronista e humorista, foi coator do programa televisivo Gato Fedorento. É, desde 2012, um dos elementos do programa Governo Sombra, na TVI24, e estreou em 2014 o programa diário na TVI, Melhor que Falecer. Na Rádio Comercial tem uma rubrica, Mixórdia de Temáticas. Publicou quatro livros de crónicas: Boca do Inferno (2007), Novas Crónicas da Boca do Inferno (2009 – pelo qual recebeu o Grande Prémio da Crónica, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Câmara Municipal de SintraA Chama Imensa (2010) e Mixórdia de Temática (2012), para além de Se não entenderes eu conto de novo, pá (Brasil, 2012) e A Doença, o Sofrimento e a Morte entram num bar (2016).