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Empatia
Empatia
Sobre o imoderado uso de um termo próprio da psicologia e da estética

« (...) A empatia liberta por todos os lados um cheiro a torpor, a um movimento de identificação acrítica com tudo e mais alguma coisa. (...)»

 

A passagem da palavra empatia de um uso técnico e erudito para um uso corrente, induzido pela linguagem dos media é um daqueles fenómenos que podia ser estudado por uma sociologia linguística. Em tempo, havia a simpatia, a antipatia e a apatia. Quanto à empatia, que a maior parte dos falantes desconhecia, fazia parte da linguagem dos conceitos, quer da psicologia, quer de uma outra área completamente diferente. A Estética. Na verdade, foram alguns teóricos da Estética, de língua alemã, que, desde o final do século XIX, tornaram a empatia uma questão importante da experiência estética. Seja-me permitido dizer que o actual uso imoderado da palavra empatia me provoca alguma irritação, ao ponto de, talvez injustamente, ter desenvolvido uma suspeita em relação ao sentimento que assim é designado. A empatia liberta por todos os lados um cheiro a torpor, a um movimento de identificação acrítica com tudo e mais alguma coisa. Nas suas manifestações mais visíveis, é uma fonte do kitsch.

Fonte

Texto publicado do suplemento Ípsilon do jornal Público no dia 9 de agosto de 2019, escrito conforme a norma gráfica anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

Sobre o autor

António Guerreiro (Santiago do Cacém, 1959) licenciou-se em Línguas e Literatura Moderna – Português/Francês – pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1986, ingressou como assistente da cadeira de Introdução aos Estudos Literários na Escola Superior de Educação do Porto. Entre 1989 e 2013, foi crítico literário e jornalista cultural do semanário Expresso. Colunista do jornal Público, no suplemento cultural Ipsílon.