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Clównico e clownesco: falta de regras hoje… e ontem…

Há um pouco a ideia de que o acréscimo de neologismos, quer na língua corrente, quer nas linguagens especializadas, resulta do maior contacto entre as línguas potenciado pela globalização, adquirindo predominância neste processo o inglês, enquanto língua franca de comunicação. E, na ausência de uma entidade de supervisão, que discipline e controle a entrada desses empréstimos, ela é feita de forma anárquica e desregulada.

Ambas as premissas estão certas. Porém, é bom não esquecer que estes empréstimos não são de hoje e sempre ocorreram, primeiro pelas ocupações territoriais e pelos fenómenos migratórios, depois sobretudo pelo predomínio cultural. E sempre ocorreram sem supervisão ou controlo, ao critério de falantes e escreventes. E sempre ocorreram das línguas dominantes para as mais periféricas. E sempre ocorreram com mais ou menos lógica fonológica e morfológica.

Acontece que antes eram menos e hoje são mais, acompanhando, aliás, o ritmo de produção do conhecimento que duplica a cada cinco anos.

A provar isto, deixo aqui dois neologismos que surpreendi recentemente aquando da releitura de Os Gatos, de Fialho de Almeida: clównico e clownesco, de proveniência anglo-saxónica, cuja construção, pela importação directa do radical e pela peculiar acentuação do primeiro, faz lembrar algumas importações mais recentes e certamente arrepiará alguns:

«No capítulo das manifestações de dor individual, chega a ser clównico o sardonismo que a canalha pública fez chispar do luto decretado pelo Sr. José Luciano, no Diário do Governo

«Ora, uma cidade que exterioriza o respeito pelos mortos pela clownesca forma que viram […].»

Clown e clownesco constam hoje em vários dicionários e vocabulários. Sem escândalo, José Pedro Machado até fez o pleno ao registar, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, clown, clównico e clownesco. No primeiro caso registando também o sentido de ginasta. Ainda que em observação alerte: «este anglicismo pode ser vantajosamente substituído por arlequim, palhaço, saltimbanco, etc.». Sublinhe-se, a (des)propósito, que por exemplo o italiano adaptou clownesco para claunesco1

Será bom lembrar que o uso das palavras atrás referidas ocorreu na segunda metade do século XIX e que até foi registado em dicionários anteriores ao da Academia…

1 Do ponto de vista ortográfico, clównico e clownesco são formas anómalas, porque as grafias híbridas (radical em ortografia estrangeira + afixo em ortografia portuguesa) só são admissíveis quando se trata de derivados de nomes próprios estrangeiros (por exemplo, kantiano, darwiniano, byroniano), à luz tanto do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) como dos anteriores normativos — o Formulário Ortográfico de 1943 (em vigor no Brasil até 2008) e o Acordo Ortográfico de 1945 (ainda em vigor em Portugal, mas em processo de substituição pelo AO90 até 2015). Seria, pois, de esperar que, de clown, que é substantivo comum, e não próprio, se criasse o aportuguesamento "claune" (não atestado), dando passo às formas derivadas "cláunico" e "claunesco". Apesar disso, nos dicionários brasileiros (Dicionário Houaiss) e portugueses (o mencionado dicionário de José Pedro Machado) a única forma registada é a híbrida, clownesco, o mesmo acontecendo nos novos vocabulários ortográficos (o da Academia Brasileira de Letras, o da Porto Editora e o Vocabulário Ortográfico do Português do ILTEC). 

* Com a colaboração de Carlos Rocha.

Sobre o autor

Paulo J. S. Barata é consultor do Ciberdúvidas. Licenciado em História, mestre em Estudos Portugueses Interdisciplinares; curso de especialização em Ciências Documentais (opção Biblioteca e Documentação) e curso de especialização em Ciências Documentais (opção Arquivo).