Almece e atabefe * - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa O nosso idioma Artigo
Almece e atabefe *
Almece e atabefe *
Duas palavras de origem árabe que querem dizer o mesmo no Alentejo

« (...) Almece e  atabefe: obrigados, senhores árabes, por estas duas palavras tão descritivas de mais esta delícia escondida do Alentejo! (...)»

 

Hoje o meu lanche foi almece. Nunca tinha provado almece. Não conhecia a palavra. Dou comigo a arranjar maneira de escrever almece outra vez. Almece, almece, almece.

O almece chegou de Évora, da exemplar Queijaria Cachopas, arrefecida com blocos de gelo embrulhadinhos com cuidado. Era acompanhado por um quilo de requeijão.

O almece vende-se ao litro. Um litro custa 3 euros e dá para uma dúzia de bons lanches e pequenos-almoços. Um quilo de requeijão é um bloco gigante que ainda rende mais. Custa 5 euros. O comedimento nos preços é uma característica simpática da Queijaria Cachopas. Vejo também que têm um pequeno jardim zoológico de entrada livre em que os animais andam livres.

O almece é o estado natural do requeijão. O requeijão é o que acontece ao almece quando se aperta para tirar o líquido. O soro coalhado do almece tem uma água deliciosa, prestando-se a sopas de pão. Basta pôr sal e pimenta preta para ficar sensacional.

Os alentejanos gostam de ambivalências. O almece tanto pode ser salgado como docinho. Uma das irmãs Cachopas disse-me que se come com açúcar e canela. A Maria João que é meia-alentejana fez que sim com a cabeça. Mas come o almece dela com mel e canela. Diz que sabe a farófias.

Depois sai-se com esta: «Já sei o que isto é: é atabefe!» Ataquê? Atabefe. Em Portalegre, pelo menos, isto chama-se atabefe. Fui ver: é verdade. Almece e atabefe: obrigados, senhores árabes, por estas duas palavras tão descritivas de mais esta delícia escondida do Alentejo!

Vou dizer almece ou atabefe? Porquê escolher?

Fonte

Crónica de Miguel Esteves Cardoso para o jornal Público, em 25/01/2019, com o título "Ou atabefe". Manteve-se a norma seguida no diário português, anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

Sobre o autor

Nasceu em Lisboa em 1955. É doutorado em Filosofia Política, pela Universidade de Manchester, Inglaterra. Desde 2009 escreve diariamente no Público e, em 2013, passou a ser autor da Porto Editora, a quem confia a obra inteira. Publicou entre outros: A causa das coisas (1986), O amor é fodido (1994), A vida inteira (1995), Explicações de Português (2001). Mais aqui.