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Ainda o disparatado "paralímpico"

Texto de José Mário Costa editado na secção Cartas ao Director do Público de 16 de Setembro de 2008, reafirmando que a forma  recomendada é paraolímpico (e não "paralímpico" ou "para-olímpico"), a despeito de uma tese da autoria do professor Custódio Magueijo, da Universidade de Lisboa, que prefere a grafia "parolímpico".

 

Estando de acordo no essencial com a carta do leitor M. Correia Fernandes [«Limpem os paralímpicos», Público de 12 p.p.] — nomeadamente na crítica implícita ao desleixo que grassa nos media nacionais no que toca à língua portuguesa, como é flagrante e o mais recente exemplo o modismo instalado do "paralímpico" —, ele não tem razão na defesa da grafia "para-olímpico" (proposta infeliz desse tão infeliz dicionário que traz a chancela da Academia das Ciências de Lisboa). Vejamos porquê:

1. "Paralímpico" é o aportuguesamento do adjectivo inglês "paralympic", construído de "paralympics", substantivo inglês que resulta da amálgama das palavras "paraplegic" (= "paraplégico") e "Olympics" (= "Olimpíadas"). Estas amálgamas lexicais são hoje frequentes em inglês, em francês e noutras línguas. Em português trata-se de um processo recente de formação de palavras, cuja produtividade tem crescido à custa de processos tradicionais, mais transparentes e criteriosos.

2. No sentido de afeiçoar paralympic aos padrões morfológicos e gráficos típicos do português, o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa regista a forma "para-olímpico", grafando-a com hífen e descrevendo-a mediante a associação do elemento de formação para- (ao qual é atribuída origem grega e que exprime as noções de proximidade, semelhança e defeito) ao adjectivo olímpico. A hifenização deixa supor que o elemento para- mantém a sua integridade fonética seguido de palavra iniciada por vogal, como seja olímpico. Contudo, a aplicação do hífen a "para-olímpico" torna-se inconsistente, quando se observam no dicionário em apreço entradas nas quais a vogal final de para- se mantém ao lado da vogal inicial do segundo constituinte, sem hífen: paraescolar e paraestatal.

3. Neste contexto, outra forma foi proposta e tem sido usada, paraolímpico. É assim que se escreve na Lei de Bases do Desporto (Lei n.º 30/2004, de 21 de Julho, art.º 26). E é assim que recomenda um parecer da Associação de Informação Terminológica, solicitado pelo Instituto do Desporto e emitido em 2005. Nesse documento (disponível em http://www.ait.pt ), da autoria da Professora Margarita Correia, considera-se que é paraolímpico o termo consentâneo com a história e com a estrutura da palavra, bem como com os princípios do Acordo Ortográfico de 1945. É assim que o termo vem abonado nos melhores dicionários da língua portuguesa da actualidade: o Houaiss, brasileiro, e o Grande Dicionário da Porto Editora.1

4. Mais recentemente, um artigo do professor Custódio Magueijo (Universidade de Lisboa), publicado no n.º 25 da revista Clássica (Edições Colibri, 2006), defende que a forma mais correcta é "parolímpico", sobretudo por questões atinentes à origem grega dos elementos constituintes. Assinale-se que esta posição é muito crítica a respeito do próprio processo de amálgama que criou o termo inglês paralympics.

Em conclusão, em Portugal, é paraolímpico a forma que tem preferência institucional e se encontra registada nos citados dicionários de referência, apesar da pressão do descuidado uso de "paralímpico" pela comunicação social portuguesa. Cabe referir ainda que, no Brasil, paraolímpico é a forma corrente, sancionada pela comunidade académica (ver Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras). Num momento em que se fala de harmonia e convergência entre as variedades do português a propósito do novo Acordo Ortográfico, o exemplo brasileiro só reforça a legitimidade de paraolímpico.

Todos estes esclarecimentos estão há anos disponíveis no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (ciberduvidas.pt), subscritos por vários dos seus mais reputados consultores, donde me baseei, de resto, para a presente elucidação. Terem eles caído em saco roto — como tantos e tantos outros casos da persistência no mau uso do idioma nacional nos jornais e no audiovisual portugueses — só releva da inexistência, entre nós, de uma autoridade para a língua portuguesa. Bastava seguirmos o exemplo do país vizinho, com a sua tão dinâmica (e actuante junto dos media de Espanha e de toda a América Latina de expressão castelhana) Fundação para o Espanhol Urgente, Fundéu.

1No Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2004), o registo da forma "paralímpico" remete para a forma recomendada paraolímpico. A MorDebe regista "paralímpico", a par de paraolímpico, apenas porque o critério de constituição desta base de dados é a frequência de ocorrência de um termo nos corpora, sem propósitos normativos ou qualitativos.

N.E. — Além dos textos relacionados com este tema a seguir registados, leia-se também o artigo "Pobre Olímpia", da autoria do jurista Nuno Lima Bastos, no jornal "Tribuna de Macau", de 11 de Setembro de 2008.

Sobre o autor

Jornalista português, cofundador (com João Carreira Bom) e responsável editorial do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Autor do programa televisivo Cuidado com a Língua!, cuja primeira série se encontra recolhida em livro, em colaboração com a professora Maria Regina Rocha. Ver mais aqui.