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Controvérsias // Gramática

Perder o verbo…

O caso de «posso água?» entre crianças portuguesas

«A relação entre pensamento e palavra
é um processo vivo de nascimento do pensamento na palavra»

Lev Vygotsky

No Diário de Notícias de 6 de Março de 2025, saiu um artigo de Carlos Ferro intitulado "Preguiça linguística ou um elefante na sala?" que refere a nova moda, entre os alunos do ensino pré-escolar e do primeiro ciclo, visível entre as crianças de omitirem o verbo principal, quando falam, resultando em frases como: «Mãe (ou professor) posso água? Posso folha?» etc. Este artigo apoia-se numa reportagem feita pela jornalista Cynthia Valente, apresentada ao mesmo jornal, para a qual ouviu pais, professores e uma psicóloga. As causas apontadas relacionam-se com os vídeos curtos que as crianças vêem nos telemóveis, com a pouca comunicação existente no seio das famílias e com o ritmo acelerado em que se vive, que pode transmitir às crianças a ideia de que formular uma frase completa se torna num desperdício de tempo, pois falando assim são entendidas na mesma.

Com efeito, nestes últimos anos, apercebi-me da existência destas situações em crianças que conheço, nessa faixa etária. Embora se note um esforço da parte de pais e de professores para que formulem as frases completas, a situação repete-se. Isto leva inclusive a uma situação que presenciei em que uma criança pergunta à mãe «posso telemóvel?» A mãe insiste para que diga o verbo e sai, distraidamente, o «comer», por ser o mais usado noutras situações.

Desconheço que estudos estarão a ser feitos sobre este fenómeno, mas todos sabemos que não saber falar correctamente, implica não saber estruturar o pensamento, nem comunicar de forma eficiente. Por isso, talvez fosse importante que os especialistas da área dedicassem alguma atenção a um fenómeno verificado todo o país, sem a redução a pretextos simplistas de ser «normal nessa idade», «ter graça», ou de se tratar de um mero mecanismo de economia linguística provocado pela pressa,  pela ânsia de se querer tudo para ontem.

Cada palavra que se perde (e não são apenas verbos, também determinantes, entre outras) é uma parcela de experiência, de emoções, de sentimentos ou desejos que se torna impossível de comunicar, de transmitir de partilhar, pois a palavra existe para se poder narrar, para nos contarmos. Tal como afirma Lamberto Maffei, em Elogio da Palavra, o nosso «eu» é feito de palavras e são elas que nos ensinam a ver, por isso, «quem tem mais palavras vê mais». E termino com as questões inquietantes: será o início de um caminho para uma língua empobrecida a lembrar «Mim Tarzan e tu Jane»? O que podemos ver de nós, do mundo, dos outros, quando se eliminam as palavras? O que fica da acção humana na sociedade sem a capacidade do pensamento estruturado nascido na palavra, como refere Vygotsky?

Fonte

Crónica que a autora publicou no Jornal do Algarve em 08/05/2026. Mantém-se a ortografia de 1945, conforme o texto original, que aqui se partilha com a devida vénia.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa