Dois pontos ou vírgula - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Dois pontos ou vírgula

Estou muito grato ao nosso prezado consulente Carlos Ferreira pelas observações que fez à minha resposta de 7-4-99 sobre o emprego dos dois pontos e da vírgula «a seguir ao vocativo que encima a correspondência». E digo «muito grato», porque é com as pessoas que discordam de mim que muito aprendo: fazem-me observar, pensar e sentir, desvendar, descobrir novos caminhos e resolver.De facto, exagerei quando disse que os dois pontos, a seguir ao tal vocativo, «não têm pés nem cabeça». Se me dá/dão licença, retiro esse não ter «pés nem cabeça».

I. – Vejamos o que dizem os seguintes autores sobre o emprego dos dois pontos:

1. – Jaime Rebelo (filólogo, pedagogo, professor do ensino secundário) em «Pontuação e Análise Sintáctica», 2.ª Edição:

«A) Antes de orações que se podem transformar em integrantes, relativas, explicativas ou continuativas. – Os dois pontos precedem orações que se podem transformar em integrantes, relativas, explicativas ou continuativas».

Seguidamente apresenta exemplos.

«B) Substituem conjunções adversativas, causais, consecutivas ou conclusivas. – Os dois pontos substituem uma conjunção adversativa, causal, consecutiva ou conclusiva».

Seguidamente apresenta exemplos.

2. – Rodrigo de Sá Nogueira (filólogo, professor do ensino secundário e depois universitário) em «Guia Alfabético de Pontuação»:

«(...) considerados semanticamente, eles indicam: a) – que a frase que se lhes segue é a justificação daquilo que se enuncia na frase que os precede, e, em certos casos, substitui a conjunção causal'porque' (...) b) – que, em determinada lista de coisas ou de factos,eles (os dois pontos) substituem a expressão 'o seguinte'».

Ilustra com exemplos as alíneas a) e b). E termina dizendo: «Em geral, empregam-se os dois pontos em seguida às expressões: a saber, o seguinte, tais são por exemplo (p. ex.), verbi gratia».

Em presença desta doutrina, com a qual concordo, saiu-me o tal atrevido «sem pés nem cabeça», que já retirei.

II. – Quanto à «Gramática de Cunha & Cintra», como é edição brasileira, interessa ao Ciberdúvidas, mas, neste particular, a doutrina dela difere do português de Portugal.

III. – O único sinal de pontuação aceitável parece-me ser a vírgula,que é um sinal que usamos para separar elementos. Ora, para quê separar tal vocativo, se ele já se encontra separado, e bem, pela posição em que se encontra?

Mais ainda: até parece que o vocativo que encima, por ex., uma carta, possui valor semântico um tanto diferente do mesmo vocativo que se encontra na redacção da mesma carta. Suponhamos o seguinte:

Meu caro Pedro

(...). Olha, meu caro Pedro, venho-te convidar para...

O primeiro vocativo funciona quase como um título, o que não acontece com o segundo. O primeiro vocativo é um quase título na seguinte situação:

Temos uma pasta-arquivo, onde há semanas guardámos uma fotocópia da carta para o Pedro. Precisamos de a consultar. Que fazemos? Folheamos a pasta até encontrarmos esse ... esse quase título, tal como fazemos comum livro à procura dum título. Como sabemos, os títulos não têm vírgula. E os vocativos «quase títulos»? Terão uma ... «quase-vírgula»?É claro que isto é ... é uma brincadeira que também serve para mostrar que não vale a pena o tal vocativo ser assinalado com vírgula. Terei alguma razão? Não terei? Não sei. Que resolva o caso o organismo nacional que a isso se destina.

IV. – Quanto ao uso em Portugal, o Tratado de Rebelo Gonçalves tem cartas com o vocativo assinalado, mas nada resolve, porque nada explica sobre tal assunto.

V. – O que há séculos está estabelecido ... e por quem? Não está estabelecido por A nem por B, mas um tanto pelo consenso geral.Faltou-me dizer isto. E esse consenso não abrange apenas os escritores,cuja opinião não é uniforme. Até mesmo num só varia a pontuação.

VI. – É evidente que Carolina de Michaëlis (e muitos outros) não seguiu a pontuação francesa. E os actuais? São tantos os imitadores em questões de linguagem, que até nos fazem crer que sim.

Estamos a precisar de um alguém constituído por várias pessoas que resolva os muitos e não raro tão grandes problemas da Língua Portuguesa.

Sobre o autor

José Neves Henriques (1916 - 2008), professor de Português; consultor e membro do Conselho Consultivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Antigo professor do Colégio Militar, de Lisboa; foi membro do Conselho Científico e diretor do boletim da Sociedade da Língua Portuguesa; licenciado, com tese, em Filologia Clássica pela Universidade de Lisboa; foi autor de várias obras de referência, entre as quais Comunicação e Língua Portuguesa e A Regra, a Língua e a Norma (Básica Editora).