De onde menos se espera * - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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De onde menos se espera *
De onde menos se espera *

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Às vezes a crítica feroz a certos usos da linguagem — qualificados como "vícios" — podem constituir meros exageros fátuos. O linguista brasileiro Sirio Posseti explica e dá exemplos.

Não vou repetir os argumentos e os dados de textos anteriores sobre o dito gerundismo. Só vou apresentar um pequeno sumário, para mostrar que a questão se resume a dois fatos, que, vistos de perto, na verdade, são um só:

a) Em todas as construções chamadas de gerundismo, o traço fundamental, ou seja, o principal fato lingüístico, é a presença do verbo estar depois de outro auxiliar. Ou seja, não é o gerúndio. Repeti até demais que todos os exemplos criticados, séria ou humoristicamente, são do tipo vamos estar providenciando/podemos estar entregando. Claro que há gerúndios, mas não são eles o "problema".

b) O segundo fato, que é apenas o outro lado da medalha (por isso disse acima que, a rigor, trata-se de um só), é que os críticos do gerundismo nunca tomaram como seu alvo construções como vou continuar estudando/vou ficar esperando/vou permanecer dormindo, ou seja, casos em que o segundo verbo auxiliar não é estar. O que prova que a) é verdadeiro. Aqui também há gerúndios, mas ninguém qualifica essas construções de gerundismo.

Na verdade, há uma coisinha a mais, mas ela é muito besta para exigir muita atenção: muita gente ouviu dizer que o gerundismo é um erro de português (o que não é verdade), que é importado do inglês (o que é outra mentira) e decidiu que todos os gerúndios (!!) são erros de português e importados do inglês.

A reação mais estranha foi a de um leitor que ficou embasbacado ao dar-se conta de que Camões tinha escrito "cantando espalharei por toda a parte", porque achava sinceramente que gerúndio não é português (afinal, dizem isso todo dia na TV e nos jornais). Ou seja: o terceiro fato, ou o segundo, dependendo de como fazemos a contagem, é que a ignorância sobre o tema é espantosa!

Mas eu disse que não ia repetir os argumentos, e quero cumprir a promessa. E também preciso justificar o título da coluna. É que, embora eu já tenha escrito diversos textinhos sobre isso e reunido um bom conjunto de fatos, mais antigos e mais recentes, não esperava ver essa construção nos dois lugares que vou citar abaixo (dos quais fiquei sabendo por meu colega de departamento Juanito Avelar).

O leitor não suspeitaria jamais que a frase abaixo consta do texto que consagra a Nomenclatura Gramatical Brasileira (Portaria 36, de 28 de janeiro de 1959). 1959! Bem antes do telemarketing, portanto! Sublinho os três auxiliares, que resultam num típico caso do que os idiotas da objetividade (retifico: retiro a expressão "da objetividade") chamam de gerundismo:

«Podem alguns verbos estar modificando toda a oração.»

Se a oração fosse enunciada na «ordem direta», isto é, se o sujeito não fosse posposto ao primeiro auxiliar (Alguns verbos podem estar modificando), o tal do gerundismo seria ainda mais típico. Mas isso não muda o fato de que esse texto legal absolutamente padrão e redigido por gramáticos contém o que alguns consideram um vício horrível...

Mas veja o atilado leitor o dado seguinte, tão espantoso quanto o anterior:

«O complemento nominal pode estar integrando o sujeito, o predicativo, o objeto direto...»

Sabe onde se encontra essa afirmação? Na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra. São dois gramáticos, e não dois jovens desleixados!!

Para quem gosta de argumentos de autoridade, estes dois são insuperáveis! Sim, senhor! Às vezes, é de onde menos se espera que... como é mesmo o ditado original?

Fonte

in Terra Magazine 29 de Novembro de 2008

Sobre o autor

Sirio Possenti é docente no Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp no Brasil. É autor de Língua portuguesa (1993), Discurso, estilo e subjetividade (1988), Por que (não) ensinar gramática na escola (1996), Os humores da língua (1998) e A cor da língua e outras croniquinhas de linguista (2001).