Os Mouros nos nomes de Portugal
Alguns nomes próprios, apelidos e topónimos
«Quanto a topónimos direta ou indiretamente relativos aos Mouros, eles abundam de norte a sul de Portugal.»
Com a palavra mouro/moiro e a forma alatinada mauro, parecem relacionar-se vários nomes próprios e apelidos de família, alguns provenientes de antigas alcunhas: Mauro, Maurício, Moura, Moreno, Mourinho, Mourato, Mourão…
Na Antiguidade, os Romanos denominavam mauri (singular maurus; em grego μαῦρος, transcrito como máuros) os habitantes da região noroeste da África, que por sua vez designavam de Mauritânia. Estas populações, também referidas pelo nome de Sarracenos, pertenciam a grupo étnico maior, o dos berberes, que posteriormente, à época da expansão árabe (século VII), vieram a converter-se ao islão, muitos dos quais adotando mesmo a língua árabe, além do idioma nativo. Os berberes juntaram-se aos árabes na conquista da Península Ibérica durante o século VIII.
Adalberto Alves, no Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa (p. 897) observa: «Mouro carreou para a língua uma certa carga de imprecisão terminológica, pois cedo (Idade Média) passou a designar uma realidade que ultrapassava, em muito, o universo postulado pelo étimo latino que se referia aos habitantes do Magrebe, em geral, e da Mauritânia, em particular.»
Para os apelidos Mourão e Mourinho, o mesmo autor propõe: «Recorde-se que a família muçulmana tradicional é de natureza patriarcal. Por isso, nas formas onomásticas aumentativas ou diminutivas, Mourão será o "mouro velho" (avô, pai e chefe dessa família) e Mourinho será o da nova geração (filho, neto, bisneto, etc.).» É uma proposta interessante, mas muito discutível, porque, na antroponímia medieval portuguesa, já se atestam formas que levam a supor nomes como *Mauranu- e Maurinu-, não necessariamente interpretáveis à luz de diferenças etárias (cf. Mourão e Mourinho em José Pedro Machado, Dicionário Onomástico da Língua Portuguesa, 2003).
Quanto a topónimos direta ou indiretamente relativos aos Mouros, eles abundam de norte a sul de Portugal. Voltando a Adalberto Alves (op. cit., págs. 902 a 907), regista este autor mais de quatrocentos. Apenas alguns exemplos: Águas de Moura, Cova da Moura, Moura, Mourão, Mouraria, Rio de Mouro, Vilamoura, Vilar de Mouros… Mais uma vez, convém também atender igualmente ao que diz José Pedro Machado quer sobre Mourão (distrito de Évora), que pode ter-se fixado a partir do nome de pessoa antes referido, quer sobre Moura (distrito de Beja), que «era denominada pelos autores de língua arábica com a palavra mōrâ [...], o que faz pensar em origem anterior [...], uma adaptação de nome anterior por etimologia popular; tratar-se-ia talvez de forma pré-romana, mor "monte"; cf. Mora, Mourão, Morouços, etc.».
Além do verbo mourejar («trabalhar como um mouro, trabalhar sem descanso»), lembremo-nos ainda da expressão «andar mouro na costa», que apresenta dois significados:
a) haver indícios da iminência de algo de inesperado;
b) aparecer um pretendente amoroso
Evocando guerras, trabalhos, ameaças e amores, assim perdura a memória dos Mouros em Portugal.
