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Elogio aos professores que nos inspiraram

Da sala de aula ao palco, a lição intemporal do “Clube dos Poetas Mortos”

«Não lemos e escrevemos poesia porque é bonito. Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana e a raça humana está repleta de paixão.» São com estas palavras que o carismático e pouco ortodoxo professor John Keating interpela os seus jovens estudantes numa das cenas que, para mim, é das mais emblemáticas do filme “Clube dos Poetas Mortos”. Através dela, somos convidados a olhar para a poesia e, por extensão, para a arte em geral, não como um conteúdo aborrecido que temos de estudar na escola, mas como uma expressão profunda das experiências e dos dilemas humanos. Nesta mesma cena, revela-se também uma pedagogia particular que inspira, provoca e convida os alunos a serem livres-pensadores. No fundo, em “Clube dos Poetas Mortos”, encontramos uma mensagem de desafio às instituições conservadoras, como é a escola, e que, quase quarenta anos após a estreia do filme, continua a comover e interpelar pequenos e graúdos. Prova disso é o enorme sucesso da adaptação teatral, atualmente em cena no Teatro Trindade, em Lisboa, com mais de 30 mil bilhetes vendidos e a perspetiva de uma digressão nacional. É como se o público português, de repente, despertasse de um certo torpor e corresse ao teatro para revisitar, ou talvez repensar, a experiência escolar.

Engane-se, no entanto, o leitor que julgue estar perante um texto de crítica teatral. Muito haveria a dizer sobre a brilhante prestação dos atores (em especial, dos mais novos que interpretam as personagens do grupo de rapazes); o cuidado e estética do cenário montado; ou ainda a discutível opção da encenação de manter o texto da peça fiel ao argumento original do filme, sem tentar arriscar uma adaptação que vá mais ao encontro do contexto da escola portuguesa contemporânea. O que aqui pretendo é fazer uma outra coisa. Inspirada pela comoção que observei no público, desde jovens em lágrimas a professores aposentados nostálgicos, tenciono discutir e refletir um pouco sobre o papel do professor na sociedade atual e sobre o que verdadeiramente significa inovar na escola.

Todos guardamos na memória professores que nos marcaram. Recordamos com carinho aqueles que nos abriram horizontes, que acreditaram em nós quando ainda não o fazíamos, que transformaram uma disciplina aparentemente aborrecida numa paixão duradoura. Outros, pelo contrário, acabaram por ser os vilões da nossa história de vida, pela forma humilhante e desmotivadora como nos tentavam ensinar. Esta dualidade é central quando se discute o papel do professor na sociedade atual. Embora existam políticos e agentes da opinião pública que sempre tentaram e ainda tentam reduzir o papel do professor a um simples transmissor de conteúdos, a verdade é que um professor acaba, mesmo que indiretamente, por ser uma figura de referência, capaz de influenciar decisões tão marcantes como a profissão que acabamos por escolher.

Todo o professor deseja um dia vir a ser um professor Keating dos seus tempos. Quer pela coragem de ignorar o que está estabelecido à partida no currículo, quer pela capacidade de inspirar e comover o seu grupo de estudantes. Na verdade, o que uma personagem como professor Keating nos ensina é que para ser inovador e inspirador basta ser autêntico e ensinar os assuntos que nos são queridos com paixão e entusiamo.

Num tempo em que a palavra inovação se tornou quase obrigatória no discurso sobre educação, é tentador associá‑la automaticamente à introdução de tecnologia na sala de aula. Atualmente, a inovação pedagógica é facilmente confundida com a introdução de recursos como plataformas digitais, aplicações com exercícios interativos ou, mais recentemente, ferramentas de inteligência artificial. Tudo isto pode ser útil, e em muitos casos é, mas confundir meios com fins é um erro que muitos fazem recorrentemente. A tecnologia, por si só, não transforma a escola, quando muito, limita-se a conferir-lhe uma aparência de modernidade tecnológica.

Na realidade, o que muitos se recusam a assumir é que a verdadeira inovação pedagógica não reside nos dispositivos ou ferramentas que os professores usam, mas na sua intencionalidade pedagógica. Está na forma como se colocam perguntas, como se estimulam a curiosidade e o pensamento crítico, como se criam espaços seguros para errar, discordar e experimentar. Está, sobretudo, na capacidade de relacionar os conteúdos com o mundo e com a vida dos alunos, tornando o que se aprende significativo.

Neste sentido, “Clube dos Poetas Mortos” continua a ser uma narrativa profundamente atual. A inovação que esta história propõe não está na tecnologia e no seu uso, mas sim na humanidade. Pois só se aprender a ser humano com outros humanos. Consequentemente, tanto no filme, como agora na peça, o que encontramos é a defesa de uma escola que reconhece os estudantes como pessoas inteiras, com emoções, medos, sonhos e contradições. Uma escola onde o professor, sem abdicar da sua autoridade, inspira e transmite conhecimento com entusiasmo e paixão.

Talvez por isso esta peça tenha provocado tamanha comoção. Num contexto em que muitos professores se sentem exaustos, pressionados por metas, avaliações e burocracias, e em que os alunos frequentemente percecionam a escola como distante da vida real, esta história funciona como um espelho e como um lembrete de que ensinar pode (e deve) ser um ato transformador.

No final, a pergunta que fica não é se todos os professores devem ser como o professor Keating, pois essa seria uma expectativa irreal e até injusta. A questão que arrisco deixar ao leitor deste texto é que espaço damos, enquanto sociedade, para que os professores possam ser mais do que meros transmissores dos conteúdos estabelecidos por um currículo? Que condições criamos para que possam inovar, no sentido mais profundo do termo?

Talvez a verdadeira inovação escolar comece quando voltarmos a valorizar o professor enquanto intelectual e enquanto figura capaz de inspirar. Ainda assim, quero acreditar que a escola continua a ser algo que mobiliza as pessoas, pois, se assim não fosse, não haveria tanta gente a correr para ver uma história que, no fundo, é sobre a escola e o poder que um professor pouco convencional tem de a mudar. Quero também acreditar que, por mais difíceis ou até sombrios que possam ser os tempos para a prática docente, enquanto existirem professores que, inspirados pela figura do professor Keating, não tenham medo de ser ousados o suficiente para fazer um grupo de estudantes declarar “Oh captain, my captain”, a escola continua em boas mãos.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa