O nosso idioma // Formas de tratamento
No Brasil, gritam garçom. E em Portugal ?...
Vocativos num café ou num restaurante

Em todos os países, julgo, há uma maneira de chamar um empregado de um café ou de um restaurante. Por exemplo, no Brasil, gritamos: «garçom»; em França, «Monsieur» (ou se for uma senhora, «Madame»).
Em Portugal, não há um vocativo para se chamar o empregado!... Então, dizemos, por exemplo, «Olhe, se faz favor...».
Os estrangeiros devem achar isto estranhíssimo…
Uma brasileira refere-se a este tema dizendo:
«Português de Portugal: Empregado de mesa
Este é um dos maiores problemas de comunicação de Portugal. É o único lugar do mundo onde garçom não tem nome. É chato ficar chamando: ô, empregado de mesa!! Mas com o tempo se descobre como chamar em Portugal. É assim: "Se faz favor!" Ele atende na hora.»
Muito interessante o que Fernando Venâncio escreve sobre isto:
«Você caminha por uma rua em Madrid. À sua frente, um sujeito deixa cair um porta-moedas. Você, pessoa séria, tem de agir com urgência, antes que um ladrão se lance sobre o objecto. E grita "Señor".
Você está agora em Paris. Há destas sortes. Segue por uma rua, quando um sujeito à sua frente deixa cair o porta-moedas. Antes que um gatuno salte dalgum esconderijo, você grita "Monsieur".
Agora, e a sorte continua em sua perseguição, está você em Londres. Avança por uma rua e, lá está, o sujeito à frente deixa cair o porta-moedas. Não vá surgir de esquina vizinha algum larápio, você grita "Sir".
E assim por essa Europa fora. Em Roma gritaria "Signore", em Berlim "Mein Herr", em Amsterdão ou Antuérpia "Meneer".
Pronto, e agora está em Lisboa ou outra terra nossa. Vai pelo passeio a pensar na morte da bezerra, e à sua frente um cavalheiro, tumba, deixa cair o porta-moedas. Um ratoneiro ia chamar-lhe um figo, não fosse você gritar... gritar... mas o quê?
Eu gritaria "Olhe, faz favor", ou "O senhor aí", ou "Ó senhor", ou "Psssst". Mas nunca, simplesmente "Senhor", como o mundo talvez inteiro.
Não. Em Portugal, "Senhor" não existe como vocativo. E "Senhora" também não. Mas, ao contrário do vocativo "Minha senhora", não dizemos "Meu senhor".
Temos, é verdade, as respostas "Sim senhor", "Sim senhora", ou "Não senhor", "Não senhora". Mas isso não são vocativos, senão mero reforço do "sim" e do "não". E de tal maneira que (um brasileiro, e todo o ser pensante do Planeta, acha isso absurdo) dizemos com naturalidade "Sim senhor" a uma senhora e "Sim senhora" a um senhor. O verdadeiro sexo do interlocutor não conta, pois trata-se, mais uma vez, dum 'reforço' de "sim" e de "não". Tal como um inglês diz tranquilamente "Yes sir" a uma mulher.
Não se trata, pois, de "o senhor" ou "a senhora" sujeitos duma frase («A senhora como está?», «Ontem vi o senhor na papelaria»). Não, trata-se dos vocativos "Senhor!" e "Senhora!", entre nós inexistentes. Dizemos "Como está o senhor?" ou "O senhor como está?", mas não "Como está, senhor?" ou "Senhor, como está?". Somos muito especiais.»
Texto publicado no Facebook (05/09/2019).
