Quando as palavras não contam a história que imaginamos
Mitos, falsas associações e interpretações intuitivas sobre a origem de algumas palavras do português
Embora a história das palavras seja um domínio complexo dos estudos linguísticos, a etimologia de certos termos e expressões, frequentemente evocada em conversas informais por simples curiosidade, constitui um terreno particularmente fértil para equívocos. O estudo da origem de algumas palavras e expressões é um domínio, tal como observam alguns especialistas, comummente atravessado por interpretações apressadas e raciocínios intuitivos que, apesar de sedutores, pouco têm de rigor científico.
Existe, para muitos, a tentação de explicar a origem das palavras mediante decomposições morfológicas imediatas ou analogias fáceis, ignorando percursos históricos complexos e diferentes contactos linguísticos. O caso de albergue, muitas vezes tomado como arabismo por causa do segmento inicial al-, muito frequente em vocábulos de origem árabe, é bem ilustrativo dos mitos que se criam sobre a origem de alguns termos e que estão longe de dar conta da verdadeira história da palavra. A investigação demonstrou que o termo português albergue terá, na realidade, origem no provençal antigo albergue, este, por sua vez, é uma adaptação do gótico *haribairg(o), que significa «acampamento, alojamento». Portanto, a coincidência fonética que alimenta a narrativa tradicional revela-se assim ilusória, recordando que a evolução linguística raramente segue trajetórias tão lineares quanto gostaríamos.
Contudo, estas interpretações intuitivas não surgem por acaso, uma vez que, conforme se explica no texto do Ciberdúvidas “Como identificar uma pseudoetimologia”, a maioria das explicações infundadas partilha um conjunto de características, como exageros verosímeis ou a tendência para transformar hipóteses soltas em verdades absolutas. Por isso se perpetuam ideias falsas como a suposta relação entre a origem da palavra azulejo e azul. Na realidade, ao contrário do que alguns pensam, azulejo não vem de azul, já que a sua origem está no árabe al-zulayj, que significa “pedra polida”. Por outro lado, azul, embora também tenha origem no árabe, provém do termo lāzūrd.
Outra falsa crença também muito difundida é a de que todas as palavras iniciadas por al- são de origem árabe, embora seja verdade que muitos arabismos apresentem esse elemento inicial (como alfarroba, almofada ou algodão), trata‑se de uma coincidência fonética que não basta para determinar a etimologia de uma palavra. Neste sentido, como se disse antes, palavras como albergue e albergaria, apesar de, pela sua forma, poderem levar alguns a julgar tratar‑se de vocábulos de origem árabe, provêm, na realidade, de étimos germânicos relacionados com abrigos ou alojamentos. O mesmo acontece com alabastro, cuja origem é grega, ou alma, termo que vem do latim anima.
Em síntese, a circulação de pseudoetimologias, algumas ingénuas, outras mais elaboradas, mostra como a curiosidade linguística pode facilmente resvalar para interpretações equivocadas quando não se apoia em fontes credíveis e reconhecidas do ponto de vista científico. Reconhecer essa complexidade não diminui o encanto da história das palavras. Pelo contrário, permite apreciá‑la com maior profundidade, compreendendo que cada termo transporta consigo séculos de transformações, encontros culturais e adaptações que não se deixam reduzir a narrativas simples ou intuitivas.
