O nosso idioma // Va
Variação e mudança linguística
Paráfrase da visão de Said Ali
Em oito pontos, parafraseio abaixo o texto do nosso grande filólogo e gramático Manuel Said Ali Ida (1921), que nos explica como surgem as variações e mudanças linguísticas: a língua muda de baixo para cima, ou seja, as inovações nascem na fala comum, espalham-se socialmente e só depois são acolhidas pela norma culta escrita.
1. Não sabemos exatamente quando uma mudança na língua começa.
2. A escrita, naturalmente mantenedora das formas consagradas, demora mais a mudar. Por isso, ela não mostra imediatamente o que já está acontecendo na fala.
3. Uma novidade na língua falada aparece, às vezes criada por uma pessoa ou por poucas pessoas.
4. Se essa novidade agrada, logo passa a ser usada por muita gente na fala cotidiana.
5. As pessoas cultas rejeitam a novidade no começo, mas depois acabam adotando-a também.
6. Mesmo que não usem a novidade na escrita mais esmerada ou formal, essas pessoas passam a usá-la na conversa informal do dia a dia.
7. Depois de muitos anos, a escrita literária passa a acolher a mudança, já que ela se torna estável na fala de todos.
8. Segundo Said Ali, é assim que não só pequenas mudanças linguísticas ocorrem, mas também como se consolida o português moderno.
Resumo da ópera:
A entrada de novas formas na norma culta escrita está condicionada à difusão generalizada na fala, ao uso progressivo pelos falantes cultos — ainda que primeiro na fala informal —, e ao decurso do tempo, até que a escrita culta passe a acolher o que já é sentido como uso comum em todos os estratos sociais. Em suma, depende da consolidação social da inovação em todos os gêneros textuais, até os de maior grau de formalidade, e sobretudo na linguagem literária, mas não como exotismo, emulação do colóquio, experimentalismo, regionalismo, mas sim como fato linguístico consagrado.
Texto publicado na página de Facebook do autor (26/02/2026) e aqui partilhado com a devida vénia
