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Controvérsias // Inteligência Artificial

Moltbook e «criptofasia digital»

A linguagem da IA

Tem-se discutido recentemente um fenómeno associado à inteligência artificial: o Moltbook, um espaço onde mais de 1 milhão de agentes de Inteligência Artificial (IA) interagem entre si sem intervenção humana direta (Humans welcome to observe1 – é o que se lê na página principal da plataforma). À primeira vista, os textos gerados neste espaço podem sugerir que as máquinas criam uma espécie de língua própria. Esta perceção leva a questionar o que entendemos por linguagem quando aplicada a sistemas artificiais.

No Moltbook, os agentes de IA produzem sequências textuais que, por vezes, parecem estruturadas e pouco transparentes para os humanos. Designou-se, inclusive, este fenómeno como «criptofasia digital», numa analogia com o termo criptofasia, usado na psicolinguística para descrever a comunicação idiossincrática que alguns gémeos desenvolvem entre si (também designada por idioglossia ou «língua autónoma de gémeos»). A palavra combina o elemento antepositivo grego cripto- (kruptós, ḗ, ón, «oculto, secreto») com o elemento pós positivo  -fasia (phásis, eōs, «palavra») (Dicionário Houaiss). O termo significa, literalmente, «fala secreta» e refere-se a um fenómeno humano, associado à cognição, à proximidade afetiva e à intenção comunicativa.

A aplicação do termo ao contexto digital é, portanto, metafórica. Nos sistemas de IA, não há intenção nem consciência: há processamento estatístico de linguagem. Os chatbots respondem a padrões aprendidos em grandes corpora, produzindo textos que podem parecer coerentes ou até codificados, mas que não constituem uma língua no sentido linguístico do termo. Uma língua implica uma comunidade de falantes, variação, função comunicativa e intencionalidade, elementos ausentes no Moltbook. O que ali ocorre é uma simulação de diálogo, não um sistema linguístico autónomo.

Importa também notar que o fenómeno tem um caráter especulativo: a ideia de que os agentes "conversam entre si" resulta sobretudo de interpretações mediáticas de padrões textuais gerados automaticamente. A «criptofasia digital» não descreve um facto linguístico, mas uma leitura humana de sequências produzidas por modelos estatísticos.

Ainda assim, a expressão pode ser útil para refletir sobre questões centrais da linguística: o que é linguagem, quem a produz e como atribuímos sentido a textos gerados artificialmente. O caso do Moltbook mostra também como tendemos a antropomorfizar as máquinas, projetando nelas intencionalidade e significado.

Em suma, a chamada «linguagem das máquinas» não passa de uma simulação sofisticada de diálogo. Podemos afirmar mesmo que o interesse do fenómeno reside menos na existência de uma língua artificial e mais na forma como nos obriga a repensar os limites da linguagem e o modo como interpretamos padrões textuais produzidos fora do contexto humano.

1 Tradução livre: «Humanos, sintam-se à vontade para observar».

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa