DÚVIDAS

ARTIGOS

Controvérsias // Ciência e investigação

Do pensamento criativo como contraponto do absurdo

A pressão da economia de mercado sobre a vida académica

«Tenho visto a agravar-se nos últimos anos é a [...] pressão extrema para a publicação de trabalhos académicos, o denominado "publicar ou morrer"

Resolvi, também em honra aos muitos anos vividos no Alentejo (e aos estereótipos, que, como, referiu Ruth Amossy, são o pronto-a-vestir do espírito), retomar o «elogio da lentidão», defendido por Lamberto Maffei, desta vez para me centrar numa área que conheci bem, nos últimos tempos, a académica.

Com efeito, o que tenho visto a agravar-se nos últimos anos é a tal pressão extrema para a publicação de trabalhos académicos, o denominado «publicar ou morrer» (em inglês publish or perish), que tem atingido extremos, um pouco por todo o lado. Recentemente, foi chamada a atenção pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post, para o suicídio de alguns jovens, brilhantes investigadores.  Isto tudo por uma obsessão com rankings e estatísticas que frequentemente estão associados a maiores apoios financeiros, deturpando completamente a realidade.

Em Portugal, a investigação académica é um mundo marcado pela mais profunda e vergonhosa precariedade – e não vou falar de endogamia, do tráfico de influências, nem de concursos viciados…

A verdade é que a pressão e o desespero conduzem, por vezes, a publicações em revistas “predatórias”, sem credibilidade, que publicam qualquer coisa sem a exigida avaliação de pares, mediante pagamento.

Além disso, a coexistência de cada vez mais "inteligência artificial” e menos natural, misturada com outros ingredientes, provoca situações verdadeiramente cómicas. No meu caso, há tempos, recebi um e-mail de uma dessas revistas suspeitas, tratando-me por Dear Dr. Maria Ondina Braga, aludindo a um artigo meu sobre essa escritora que estava publicado numa revista credível e indexada, mas que queriam republicar. Simplesmente, não distinguiam a autora do artigo da escritora cujo trabalho era analisado. Um pouco como o confunde-se o «amador com a cousa amada» de Camões, mas convertido em grande e deturpada mixórdia. Além disso, também uma outra plataforma académica já me enviou mensagens a informar que o meu co-autor José Saramago pode ajudar a incrementar a visibilidade do meu trabalho. Imagine-se que, em 2023, usando as mais avançadas técnicas de esoterismo e ocultismo (muita mesa de pé-de- galo e viagem ao Além), escrevi um artigo em parceria com José Saramago! Só que não! Foi em co-autoria com uma aluna chinesa de doutoramento, e o tema era "a  recepção das obras de Saramago na China”. Portanto, bem posso continuar à espera do apoio desse meu imaginário co-autor… Quem sabe? Ainda outro ponto alto do absurdo foi ter recebido convites para enviar contributos para as áreas de Anestesia, Genética e Toxicologia. Sim, já trabalhei em ambientes tóxicos, afinal quem não?  Só que nunca pensei que esta experiência conferisse competências tão elevadas e diversificadas a quem só se especializou em Literatura Comparada…

Termino, regressando a Lamberto Maffei, que na sua obra, defende a importância do «pensamento lento», em contraposição à anorexia de valores, à bulimia de consumo, a uma rapidez frenética para satisfazer mercados. Aliás, de acordo com este médico e cientista italiano, a economia de mercado negligencia a formação de cidadãos críticos (visto que se poderiam revoltar), sendo esse um dos motivos do desinvestimento no ensino básico e secundário e também no superior, tal como da desconsideração social dos professores. Como contraponto a esta situação cada vez mais evidente, tanto no nosso, como noutros países, Maffei salienta o papel essencial da arte, enfatizando que «o mundo atual tem uma extrema necessidade do pensamento diferente, original, e amiúde, criativo[…]. O artista e o cientista sempre tiveram um pensamento irreverente, é seu ofício pensar de modo diferente, criar conflitos de ideias, viver para se confrontar com o pensamento dos outros.] E no fundo, creio que será disto, da leitura, da Literatura, das Artes, da Ciência (orientada por princípios éticos), que cada vez mais necessitamos, do Algarve ao Minho e também um pouco por todo o mundo. 

Fonte

Texto publicado no Jornal do Algarve em 2 de novembro de 2025 e divulgado no Ciberdúvidas com alterações propostas pela própria autora. Mantém-se a ortografia do original, que segue o Acordo Ortográfico de 1945. Crédito da imagem: TungArt7, Pixabay (05/02/2026).

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