Pelourinho // Mau uso da língua no espaço público
Pode ou pôde?
Um acento que marca o tempo
Em Portugal, para assinalar a época natalícia de 2025, uma conhecida entidade que proporciona o acesso e a comparticipação de cuidados de saúde a um segmento da população fazia o seguinte apelo no seu boletim: «Lembre-se daqueles com quem sempre pode contar e que, agora, precisam de contar consigo.»
A frase estaria indiscutivelmente correta se nela ocorresse pôde, e não "pode", ou seja, a forma escrita mais adequada ao contexto é a da 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo poder. Com o pretérito perfeito do indicativo, possibilita-se a comparação entre duas situações, a do passado, em que se verificou o apoio dos mais velhos aos mais novos, e a do presente, em que é justo esperar uma retribuição pela reversão de papéis. Não excluindo um lapso gráfico, o acento é imprescindível e indica o timbre fechado da vogal tónica da forma verbal favorecida pelo sentido da frase.
Recorde-se que é o timbre fechado do o de pôde que distingue esta forma verbal de pode, com o aberto, um contraste fonológico nem sempre óbvio para muitos estudantes de Português Língua Estrangeira. É um caso em que o acento circunflexo tem importante função diferencial, assim distinguindo também na escrita o pretérito perfeito do presente do indicativo.
