Dia Mundial da Língua Portuguesa: o louvor da língua por escritores e gramáticos
Celebra-se a 5 de maio o Dia Mundial da Língua Portuguesa.
A língua Portuguesa, falada por tantos povos, ouvida em tanto locais, partilha-se cheia de cores feitas de sonoridades e gramáticas múltiplas. É una e plural e por muitos escritores cantada, amada e louvada.
Ouçamos o elogio da língua feito da matéria da língua:
-----------------------------------------------------------------------
Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Bernardo Soares, O livro do desassossego.
Não se pode pensar fora das possibilidades da língua em que se pensa.
Vergílio Ferreira
Uma língua, num instante dado, ainda não existe, noutro instante depois já poderemos identificá-la, reconhecê-la, dar-lhe nome. Entre esses dois instantes, por assim dizer unívocos, é grande a dificuldade de apurar até que ponto o que há-de ser já está sendo, ou se o que foi já se transformou bastante para que seja possível antecipá-lo como forma do que será. É a mil vezes repetida metáfora da crisálida, vida entre duas vidas, simultaneamente criadora. Assim se terá feito a passagem do latim ao português, com aquela crisálida linguística pelo meio a tentar chegar aos mesmos significados através doutros significantes.
José Saramago, “Uma língua que não se defende, morre”.
A Língua Portuguesa
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Olavo Bilac
Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões.
Caetano Veloso
-----------------------------------------------------------------------
A língua portuguesa é também a matéria sobre a qual os gramáticos, desde sempre, refletem, considerando a sua natureza, buscando o seu criador ou acusando quem a não cuida.
-----------------------------------------------------------------------
Não há língua alguma pura, nem a houve nunca sem mistura de outras línguas.
Duarte Nunes de Leão, Origem da Língua Portuguesa. 1606, p. 26
Grammatica he a Arte de falar e escrever correctamente a própria Lingua.
Jeronymo Soares Barboza. Grammatica philosophica da lingual portugueza, 1822, p. 1
Camões não foi propriamente o creador do portuguez moderno porque essa nova linguagem escripta já vinha empregada por outros escriptores. Libertou-a, sim, de alguns archaismos e foi um artista consummado e sem rival em burilar a frase portugueza, descobrindo e aproveitando todos os recursos de que dispunha o idioma para representar as idéas de modo elegante, energico e expressivo.
Reconhecida a superioridade da linguagem camoneana, a sua influencia fez-se sentir na literatura de então em diante até os nossos dias.
Said Ali, Grammatica histórica da língua portugueza, p. 4.
Os delinqüentes da língua portuguesa fazem do princípio histórico quem faz a língua é o povo verdadeiro moto para justificar o desprezo de seu estudo, de sua gramática, de seu vocabulário, esquecidos de que a falta de escola é que ocasiona a transformação, a deterioração, o apodrecimento de uma língua. Cozinheiras, babás, engraxates, trombadinhas, vagabundos, criminosos é que devem figurar, segundo esses derrotistas, como verdadeiros mestres da nossa sintaxe e legítimos defensores do nosso vocabulário.
Napoleão Mendes de Almeida, Verbete Vernáculo. Dicionário de Questões Vernáculas. 1981
----------------------------------------------------------------------
Pensar a língua é também procurar-lhe o sentido e constatar a sua pluralidade e pluricentrismo.
----------------------------------------------------------------------
As ferramentas, os utensílios valem pela utilidade que têm. E qual a utilidade das palavras? ‘As palavras’, diria alguém movido tão só pelo senso prático, ‘servem para pôr nomes nas coisas: sapato, peixe, estrela’.
Munidas das palavras – que tomaram o lugar das coisas, entidades e noções –, as pessoas transformam o conjunto de suas experiências e saberes em conteúdos comunicáveis, passíveis de troca. Expressões como Bom dia!, Por favor., Parabéns!, Obrigado., Valeu., Que pena! certamente não têm a natureza material das ferramentas, mas desempenham papéis análogos aos das ferramentas, visto que por meio delas modificamos ou criamos situações e atingimos objetivos.
José Carlos de Azeredo, Gramática Houaiss Da Língua Portuguesa. Publifolha, 2011, p. 42
Em Portugal, no Brasil, em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, a língua portuguesa, patrimônio cultural de todas estas nações, tem sido, e esperamos seja por muito tempo, expressão da sensibilidade e da razão, do sonho e das grandes realizações. Patrimônio de todos e elo fraterno da Lusofonia de cerca de 200 milhões de falantes espalhados por todos os continentes, continuemos a formular os votos de Antônio Ferreira, no séc. XVI:
Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
A portuguesa língua, e já onde for,
Senhora vá de si, soberba e altiva!
Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa. 39ªed, Nova Fronteira, p. 40.
As línguas não são entidades monolíticas; ou seja, não são faladas do mesmo modo por todos os seus utilizadores. Pelo contrário, são entidades altamente diversificadas, apresentando variação de acordo com a origem geográfica, o nível de instrução, a profissão e a idade dos falantes, entre outros fatores. A variação que apresentam está na origem da existência de dialetos (ou variedades).
A variação manifesta-se também a nível individual, quer na fala quer na escrita. Em primeiro lugar, o vocabulário, as regras e os princípios gramaticais dos indivíduos que falam o mesmo dialeto nunca são exatamente idênticos, podendo, assim, falar-se na existência de idioletos. Em segundo lugar, os falantes usam a língua de maneira diferente também em função da formalidade da situação de comunicação ou do grau de familiaridade entre os interlocutores. Para este tipo de variação, os linguistas usam o termo registo, ou estilo, que pode ser mais ou menos coloquial, mais ou menos familiar, mais ou menos cuidado ou mais ou menos formal.
Eduardo Paiva Raposo, Gramática do Português. Vol. I, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013, p. XXV.
----------------------------------------------------------------------------------------
Estudar e conhecer a língua é identificar o que une e separa e o seu ponto de partida.
----------------------------------------------------------------------
Como esta gramática pretende mostrar a superior unidade da língua portuguesa dentro da sua natural diversidade, particularmente do ponto de vista diatópico, uma acurada atenção se deu às diferenças no uso entre as modalidades nacionais e regionais do idioma, sobretudo às que se observam entre a variedade nacional europeia e a americana.
Cunha e Cintra, Nova gramática do português contemporâneo. Leikon, 2017, p. XXIV.
A individualidade da língua portuguesa começou a desenhar-se no domínio do léxico e pode remeter-se para uma data próxima do seculo VI. A partir dessa época longínqua, a língua falada no noroeste da Península Ibérica (actual Galiza e norte de Portugal) foi-se distanciando das variedades do latim vulgar que lhe eram vizinhas e adquiriu as características fonéticas que nos permitem identificá-la como o estádio primitivo da língua portuguesa.
Maria Helena Mira Mateus, Gramática da Língua Portuguesa. Caminho, 2003, p. 25.
----------------------------------------------------------------------
No Dia Mundial da Língua Portuguesa falar, pensar e analisar a língua é o primeiro passo para a celebrar, tal como faz Inês Gama, consultora do Ciberdúvidas, em «No princípio estava a língua portuguesa»: «uma oportunidade de celebrar a língua como uma casa em permanente construção. Uma casa com sotaques variados, com palavras antigas e neologismos tímidos, com regras necessárias e exceções fecundas. Uma casa onde cabem Camões, Eça, Machado, Pessoa, Sophia e Clarisse, mas também o rap, o humor televisivo, as redes sociais e a fala quotidiana».
