Deslassar vs. deslaçar: etimologia, significados e grafia
Pedro Passos Coelho, antigo primeiro-ministro português, numa conferência proferida recentemente, defendeu que os atuais movimentos migratórios são demasiado intensos e estão a «deslassar/deslaçar» a Europa. Como é normal, vários foram os meios de comunicação social que reproduziram por escrito algumas das afirmações de Passo Coelho, o que não seria digno de nota, pelo menos de natureza linguística, não fosse a oscilação que se verificou na forma de grafar a palavra: deslassar ou deslaçar? O caso motivou inclusive um apontamento da jornalista Bárbara Reis no jornal Público.
A questão pode resumir-se deste modo: o que queria o ex-primeiro ministro efetivamente dizer e como se escreve a palavra? Para procurar uma resposta para esta indefinição, comecemos por constatar que estamos perante palavras homófonas, ou seja, que se pronunciam de forma idêntica, e que ambas têm entrada autónoma em verbete de dicionário. Se atentarmos na etimologia e na formação das palavras, verificamos que deslaçar se forma pela junção do prefixo des- à base verbal laç(ar), que significa «fazer laço, atar, apertar» e que virá do verbo latino lacĭo («enlaçar, enredar»). Deste modo, deslaçar tem o valor de «desatar, desprender, desenlaçar o que estava enlaçado». É com este valor que o encontramos em autores canónicos:
(1) «A distância aperta uns vínculos e deslaça outros.» ( Aquilino Ribeiro , Mónica)
(2) «Gemia, intercortava o pranto com exclamações soltas, enrolava no pescoço os cabelos deslaçados pela violência da aflição, buscando na morte o mais pronto dos remédios.» ( Machado de Assis, Helena)
(3) «Arrastou se para o sítio donde vinha o murmúrio e esbarrou no corpo de Jacinto. Apalpou-lhe as roupas que podiam torcer-se, o peito, um braço, as cordas deslaçadas do animal, na queda.» (Carlos de Oliveira, Casa na Duna)
Usado com este valor, deslaçar é antónimo de enlaçar. Note-se ainda que esta forma verbal se usa para descrever a situação em que, numa emulsão, a parte líquida se separa da sólida, como em «a maionese deslaçou» (como se deu conta nesta resposta).
Já o verbo deslassar é usado com o sentido de «tornar frouxo, alargar; tornar pouco consistente; amolecer». Identificamos estes valores em textos da literatura:
(4) «O pároco levantou-se também. Recolhia-se, que era já bastante tarde e caía de fadiga. Entrou no quarto com uma amargura ácida, um pesar indefinido, um tédio mortal, parecendo-lhe que tudo se lhe embotara dentro. Deslassava-se em moleza e vacuidade. Rezou o ofício maquinalmente, deitou-se e apagou a luz.» (Aquilino Ribeiro, Terras do Demo)
(5) «Este sossego deslassa-me, tenho a impressão de que vou rir idiotamente..» (José Rodrigues Miguéis, Páscoa Feliz)
Deslassar forma-se pela junção do prefixo des- à base lass-, que advém de lassus, termo latino que significa «cansado, esfalfado». Nos seus verbetes de dicionário, o verbo lassar reúne valores como «tornar lasso, tornar frouxo, tornar pouco consistente». Estes registos mostram que lassar e deslassar são usados com significados aproximados, o que nos permite concluir que, neste caso, a preposição des- não acrescenta um valor de negação à forma de base, ativando antes valores de reforço ou de intensidade, como acontece, por exemplo, em desinquieto.
Regressemos às palavras de Pedro Passos Coelho: qual terá sido a intenção do orador no seu discurso? Seria: a intensidade dos movimentos migratórios está a abrir, a enfraquecer os laços que uniam a Europa, i.e. está a deslaçar? Ou estes movimentos estão a tornar a Europa pouco consistente, frouxa e, logo, estão a deslassar? Na verdade, o que se constata é que ambas as palavras poderão ser ajustadas a este contexto de uso e, neste caso, os significados de deslaçar e deslassar não são tão afastados quanto à partida se poderia pensar ou desejar. A relação de homonímia que aproximou foneticamente as palavras estará eventualmente a estender-se a uma proximidade semântica que dificulta o estabelecimento de fronteiras semânticas que indicariam qual a palavra ajustada a certos usos mais figurados.
Para este apontamento, recorreu-se às seguintes fontes:
Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa;
Corpus do Português, de Mark Davies.
