Bolsonarismo, lulismo, petismo e os «vira-casacas»
No Brasil, os resultados da primeira volta das eleições presidenciais ditaram a necessidade de uma segunda ronda de votações, que será disputada pelos dois candidatos mais votados: Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), que conquistou 45% dos votos, e Flávio Nantes Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), com 47% dos votos.
A campanha eleitoral conduziu à definição de posições, a alinhamentos políticos com as ideologias e medidas propostas, e, como é natural, a língua fez o seu caminho na criação ou na mobilização de termos e expressões que permitam, seguindo o princípio da economia linguística, designar as realidades concretas e abstratas envolvidas neste processo. No âmbito do contexto extralinguístico das eleições brasileiras, entre os termos mais usados, destacamos os que designam as correntes que assumiram maior força eleitoral: o bolsonarismo e o lulismo.
Ambas as palavras são neologismos formados com base num processo morfológico de derivação, que toma como radical os apelidos dos candidatos, aos quais se retirou a vogal correspondente ao índice temático – Bolsonar(o) e Lul(a) – e se acrescentou o sufixo -ismo. Este sufixo é dos mais produtivos em língua portuguesa, tendo a capacidade de formar nomes de ação (como ostracismo, p.e.) ou indicar a ação de agentes tóxicos (como em alcoolismo, p.e.). É igualmente muito produtivo na formação de palavras que designam movimentos sociais, ideológicos ou políticos (entre outros), o que justifica a sua mobilização nas palavras aqui em apreço. Em estreita correlação com o sufixo -ismo, assinalamos o recurso ao sufixo -ista, que se associa às mesmas bases lexicais para designar um adepto, seguidor ou partidário de um movimento, permitindo, deste modo, a criação dos termos bolsonarista ou lulista.
Para além dos dois neologismos centrais no atual processo eletivo brasileiro, identificamos também o uso do nome petismo para descrever um movimento político, consolidado nas recentes eleições e centrado não no candidato Lula da Silva, mas na ideologia do Partido dos Trabalhadores (PT). Estamos perante uma palavra que se formou partindo da sigla do partido, PT, a qual, soletrada, permite a leitura silábica ("pê-tê") e a formação de um radical pet-, a que, por fim, se associou o já referido sufixo -ismo. Como nos casos anteriores, de petismo também se forma petista para referir os seguidores da linha política.
Acrescentemos, por fim, a esta lista de designações de correntes políticas, o termo vira-casacas, usado em diferentes eleições (brasileiras ou portuguesas, diga-se) para referir aqueles que mudam de cor política, passando a apoiar um candidato ou partido político diferente do que tinham apoiado no passado. Trata-se de uma palavra composta, formada pela junção de uma forma do verbo virar ao nome casaca. Etimologicamente, a formação da palavra estará relacionada com o facto de que o político, ao mudar de partido, trocava também as cores da sua casaca, passando a exibir as cores do novo partido. A este propósito, note-se que ainda hoje se usa «cores do partido», uma expressão formada por metonímia, na qual o termo cor, aludindo inicialmente à materialidade da cor da bandeira ou do vestuário de um partido, passou a referir a sua ideologia.
