Bipartidarismo, humanismo e extremismo no contexto das atuais eleições à presidência da República em Portugal
Em Portugal, decorreram no passado dia 18 de janeiro as eleições presidenciais, que ditaram a passagem à segunda volta dos candidatos associados ao Partido Socialista (PS) e ao partido Chega. Os comentadores políticos, antecipando a possível vitória do candidato António José Seguro, associado ao PS, já falam em regresso ao bipartidarismo, um termo que designa um sistema político assente em dois partidos nucleares. Com efeito, a confirmar-se este cenário, Portugal passará a ter como Presidente da República uma figura oriunda da esquerda e um governo de direita, uma situação que confirma o bipartidarismo e que retoma um quadro já vivido no país por diversas ocasiões, no qual esquerda e direita partilham poderes no espaço político, equilibrando, deste modo, a sua intervenção. No plano etimológico, note-se que bipartidarismo é um nome masculino que se formou a partir de bipartidário, palavra que resulta da associação do prefixo bi-, com o valor de «dois, duas vezes», ao nome partidário, que tem na base partido. Esta palavra, por vezes, é usada nos mesmos contextos que bipartidismo, que, como se explica nesta resposta, poderá não ter exatamente o mesmo significado. Note-se também a presença na formação da palavra do sufixo -ismo, que, desde o século XIX, passou a ser muito produtivo na designação de movimentos sociais, ideológicos, políticos, opinativos e religiosas (Cf. Dicionário Houaiss).
Na oposição dos dois candidatos que estarão presentes na segunda volta das eleições presidenciais, alguns comentadores estabelecem um contraste entre os termos humanismo e extremismo, usando-os quase como uma antítese que descreve dois quadros ideológicos antagónicos. No entanto, note-se que, de acordo com o significado dos termos, estes não possuem uma significação claramente contrastiva. O nome humanismo foi muito produtivo no período do Renascimento e designava, nessa época, um movimento inspirado nos valores de civilização greco-latina, que colocava o homem no centro e procurava desenvolver uma ação potenciadora das capacidades da condição humana. A palavra chegou à atualidade com uma extensão da sua significação, sendo usada para referir a ideologia que se centra no ser humano e nas suas faculdades e capacidades para transformar a realidade, mesmo em épocas de condicionamento natural ou histórico. Por seu turno, a palavra extremismo refere um tipo de pensamento político que defende opções extremas para determinados problemas. Como se observa, não estamos perante termos claramente antagónicos, pois estes descrevem, sim, diferentes formas de ver a realidade e de agir sobre ela. Deste modo, para estabelecer contrastes, será preferível opor o extremismo à moderação. Já o termo humanismo não parece ter um verdadeiro antónimo no quadro das atuais ideologias políticas, uma vez que, para referirmos uma significação contrastante, teríamos de adotar palavras como anti-humanismo ou desumanismo, que não parecem ajustar-se à descrição de alguma opção sociopolítica atual.
