As palavras estão na rua – o campo lexical do protesto
A crise da habitação tem motivado um pouco por todo o lado manifestações mais ou menos intensas, mais ou menos violentas. Portugal não tem sido exceção. O país tem assistido tanto às acampadas (ou às suas tentativas goradas), em Lisboa ou no Porto, como à reação (dita musculada) da polícia. A agitação social e os acontecimentos envolvidos têm aberto portas à construção e alargamento de um campo lexical do protesto, que, gradualmente, tem vindo a integrar mais expressões, fruto dos acontecimentos que têm vindo a ter lugar.
Assim, por um lado, a ação da polícia tem convocado expressões no âmbito da ação violenta, como «carga policial» e bastonada. Na primeira expressão, o nome carga é usado de forma figurada com o valor de «investida impetuosa» e tem sido associado a termos como brutalização («ação de tratar com violência»), uma palavra formada por derivação, na qual o sufixo -ção aponta para a «ação de» e o sufixo -izar funciona como causativo. A segunda palavra, bastonada, entrou no português por via do francês bastonnade e é formada a partir do nome bastão para referir a ação de usar aquele instrumento, dando pancada.
Por outro lado, encontramos as palavras usadas pelos observadores e comentadores, que veem o fenómeno do exterior. Neste contexto, surgem construções como «escalada de violência» ou «escalar de tensão», que incluem o verbo escalar com o sentido de «aumento progressivo da intensidade de uma dada ação». Há também quem considere que estes dias de manifestação têm sido marcados por um «clima de acrimónia», uma expressão cujo sentido se constrói em torno do valor figurado da palavra acrimónia, capaz de descrever, de forma denotativa, a «qualidade do que é acre» e, de forma conotativa, um «comportamento indelicado ou de aspereza». Este termo tem origem direta no latim acrimonĭa, que, por sua vez, é oriundo de ācer, com o valor de «agudo, cortante, áspero».
Já do lado de quem observa os comentadores das manifestações pelo direito à habitação, identificamos o uso do verbo deslegitimar, a descrever a ação desenvolvida por quem, com base, por exemplo, na aparência dos manifestantes ou no seu sotaque, procura «anular a legitimidade» de ação ou de manifestação (veja-se, a propósito, o artigo de Margarita Correia).
Os bastões, as tendas e as palavras estão na rua, mas o povo também lá está e a democracia também quer estar. Aguardemos as próximas palavras a serem convocadas para contar a história, compondo o campo lexical deste protesto.
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Os significados apresentados baseiam-se em verbetes do dicionário Houaiss e do Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências
Fonte da imagem: criada com inteligência artificial
