A Revisão das Aprendizagens Essenciais para a disciplina de Português e o campo semântico das eleições da Hungria
1. Em Portugal, está na ordem do dia a discussão em torno das referenciais curriculares para o ensino não universitário. As assim designadas Aprendizagens Essenciais encontram-se em consulta pública até ao dia 28 de abril e, no caso da disciplina de português, têm motivado uma acesa discussão que se deve essencialmente à possibilidade de Saramago poder deixar de ser autor obrigatório no currículo do 12.º ano, passando a poder ser escolhido em alternativa com Mário de Carvalho, com a obra Um deus passeando pela brisa da tarde. Embora a discussão tenha, até ao momento estado muito centrada neste tópico, várias entidades responsáveis têm alertado para a importância de se proceder a uma análise que considere também as propostas de atualização presentes nos restantes domínios, com particular enfoque para a oralidade, leitura e escrita. Neste âmbito, a Associação de Professores de Português irá realizar, no dia 16 de abril, um debate que conta com a colaboração de vários membros da direção e que tem como convidadas Margarida Braga Neves, da Faculdade de Letras a Universidade de Lisboa, e Eulália Alexandre, vice-presidente do conselho diretivo do instituto EduQA. Muitos têm sido os contributos para a reflexão e, entre eles, partilhamos a visão da consultora Inês Gama, num artigo que se centra quer na importância de uma sociedade refletir sobre as obras que pretende incluir no cânone escolar quer na questão dos processos de implementação da didática da literatura.
2. Os resultados das eleições legislativas húngaras e a maioria parlamentar conquistada por Péter Magyar abriram, tal como é frequente em situações desta natureza, espaço para a retoma de metáforas de natureza bélica, centradas na conceptualização dos dois candidatos (Péter Magyar e Viktor Orbán) como dois inimigos que se confrontam no campo de batalha. Este quadro autorizou a mobilização de expressões como «combate desigual», para descrever o processo de campanha política, e a classificação de Orbán como «cavalo de Tróia» de Trump e de Putin, como forma de caracterizar o alinhamento do antigo chefe de estado húngaro e a sua ação sobretudo no seio da Comunidade Europeia. O resultado das eleições convocou expressões contrastivas de natureza mais uma vez bélica, tais como «vitória vs. derrota», «ascensão vs. queda» ou «libertação vs. opressão». O resultado conquistado por Magyar foi descrito, ainda no campo bélico, como a «reconquista da pátria» ou, de forma hiperbólica, como uma «supermaioria» ou uma «vitória esmagadora». Todas as expressões mobilizadas (e outras que aqui não constam) mostram como a língua filtra a realidade e convoca uma compreensão dos factos que, não sendo neutra, está sempre comprometida com perceções que importa compreender.
