Poema à boca fechada - Antologia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Poema à boca fechada
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e me amordaça.
Calado estou, calado estarei,

Pois que a língua que falo é doutra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,

Vasa de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só todos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais, bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

Fonte
Os Poemas Possíveis, Lisboa, Editorial Caminho, 1981

Sobre o autor

José Saramago (Golegã, 1922 – Lanzarote, 2010), escritor português, o primeiro a ser distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, em 1998, foi galardoado com o Prémio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa, em 1991, o Prémio Camões, em 1995 ou doutorado «Honoris causa» pela Universidade de Nottingham, de Coimbra e de Charles de Gaulle – Lille, entre outros. Foi comendador da Ordem Militar de Sant'Iago de Espada desde 1985 e cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras Francesas desde 2001. Da sua obra, destacam-se: Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982), A Jangada de Pedra (1986) e Ensaio sobre a Cegueira (1996).