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Pobre vogal

De todas as vogais portuguesas, a mais desgraçada é o e. Pouca gente, hoje em dia, a sabe pronunciar quando lhe vem à colação.
   Vejamos os casos em que deve valer i - sem que se ajude a cumprir esse dever.
   Um dos casos é aquele em que o pobre do e inicia palavra sem força bastante para merecer a designação de tónico. É o caso do e inicial átono...
   Toda a gente soube, até há pouco tempo, que o e inicial átono vale i. Hoje, pouca gente o sabe. Entre-se numa roda de doutores e pasme-se de ouvir o tristíssimo e, confundível com i, soar como e aberto de par em par. À Ericeira chamam Èriceira; a Esmoriz... Èsmoriz; a Ernesto... Èrnesto; a Edmundo... Èdmundo; e a Hernâni... Hèrnâni. Dizem èclecticos, chamam aos padres èclesiàsticos, ao equador... èquador, etc.... Um deles pede a outro que lhe perdoe a èfusão. Outro desconfia do èlenco. Outro, que frequenta a igreja, diz Èpístola, embora por enquanto, não diga Èvangelho. Outro, que é rico, diz que comprou uma chácara em Èrmesinde e que, qualquer dia, comprará uma quinta em Èrvedosa. O último, que é meio poeta, e meio químico, anda sempre com os èlementos e o ètéreo na boca.
   Outro caso em que o e vale i: no fim de sílaba átona seguido de outra vogal. Pois, bem... Entremos outra vez na roda dos doutores. Lá está o que diz rèalidade, o que diz pontèar, o que anda preocupado, o que chama à seara... sèara.
   As excepções a estas regras contavam-se pelos dedos. Hoje, para as contar, seriam necessárias as patas de uma centopeia. Dantes, não havia razões etimológicas chamadas a capítulo para destruir pronúncias. A etimologia não era ètimologia. Hoje, para se falar mal, até se inventam regras que, em Português, nunca existiram. D. Hermengarda crismou-se em Hèrmengarda, aos cinquenta anos, porque lhe disseram que o seu e, seguido de duas consoantes, deve soar como bomba. Resistirá a isto algum Eurico?
   Há quem diga que as tribulações do e em casos tais, bem como as dores do a e do o em outros casos, todas essas tragédias, em suma, se devem a uma causa única. Há quem as atribua à maneira de ditar dos professores. Há quem as atribua ao ditado. O ditado é o coveiro da prosódia portuguesa. O professor primário, querendo salvar a Ortografia, dita de modo que o aluno a não erre. Dita-lhe èficiência para ele escrever eficiência. Dita-lhe passèar para ele escrever passear. O resultado está à vista, isto é, no ouvido de quem ouve e asneia ou de quem ouve e pasma.
   Se o tal ditado tem culpa, acabe-se com ele. Uma boa leitura, uma boa cópia, uma boa redacção serão suficientes para ensinar a ler e escrever sem erros.

Fonte

Texto incluído no livro "A Língua Portuguesa", Editorial Verbo, Lisboa.

Sobre o autor

João de Araújo Correia (Peso da Régua, 1899 – Peso da Régua, 1985) foi um escritor e médico português. Publicou muitos dos seus artigos n’O Primeiro de Janeiro, no Comércio do Porto ou no Jornal de Notícias. Em 1969, recebeu o Prémio Nacional de Novelística, deixando uma vasta e variada obra literária, dividida entre o conto, a crónica e a novela. Da sua obra, destacam-se: Linguagem Médica Popular usada no Alto Douro (1936), Folhas de Xisto (1959) e Pó levantado (1974).