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Lamentável sabujice

Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.

Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa, vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna com as suas influências afectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo...

Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuína e exacta propriedade de construção e de acento, em idiomas estranhos -- isto é: o esforço para se confundir com gentes estranhas no que elas têm de essencialmente característico, o Verbo -- apaga nele toda a individualidade nativa. Ao fim de anos, esse habilidoso, que chegou a falar absolutamente bem outras línguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espírito, porque as suas ideias forçosamente devem ter a natureza incaracterística e neutra que lhes permita serem indiferentemente adaptadas às línguas mais opostas em carácter e génio. Devem, de facto, ser como aqueles corpos de pobre, de que tão tristemente fala o povo, que cabem bem na roupa de toda a gente.

Além disso, o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras constitui uma lamentável sabujice para com o estrangeiro. Há aí, diante dele, como o desejo servil de não sermos nós mesmos de nos fundirmos nele, no que ele tem de mais seu, de mais próprio — o Vocábulo. Ora isto é uma abdicação da dignidade nacional.

Não, minha Senhora! Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros!...

Fonte

Extrato de A Correspondência de Fradique Mendes, 2ª. ed. Porto, 1902. pág. 142. In Paladinos da Linguagem, 1.º vol., Antologia organizada por Agostinho Campos.

Sobre o autor

Eça de Queirós (Póvoa de Varzim, 1845 – Paris, 1900) foi um escritor realista português. Estudou Direito em Coimbra e fundou o jornal O Distrito de Évora, em 1866, colaborando ainda na Gazeta de Portugal. Em 1870, escreveu, com Ramalho Ortigão, o Mistério da Estrada de Sintra e, no ano seguinte, proferiu a conferência O Realismo como nova expressão de Arte, integrada nas Conferências do Casino. Entre 1872 e 1888 foi cônsul em Havana, Newcastle, Bristol e Paris e fundou, em 1889, a Revista de Portugal. Da sua obra, destacam-se: O Primo Basílio (1878), O Crime do Padre Amaro (1880) e Os Maias (1888).