O Brasil não é somente o país dos políticos, é também a terra dos gramáticos, quero dizer, dos que têm a obsessão dos vocábulos e das regras de sintaxe. Depois de decorridos quatro séculos, e com a interposição do Atlântico, teimamos, contra todas as leis da vida, em conservar intacto o vocabulário português do século dezasseis, e com o vocabulário a prosódia e a sintaxe dos portugueses de aquele tempo...
...Nós, os brasileiros, insistimos em conservar parada a mesma língua que no seu berço prossegue o curso natural de ser vivo. Em Portugal surgem de quando em quando os solecismos, que são a contribuição providencial e vital do povo e, como é forçoso, entram no corpo da linguagem dos escritores.
Nós, os brasileiros, não queremos admitir ao nosso povo o mesmo direito de colaboração idiomática, e desprezamos as suas inovações como brasileirismos de ignorantes. A árvore replantada no solo americano e fecundo, pretendemos impedir que a seiva lhe rompa a cortiça em brotos, e reverdeça a folhagem, e dê às flores a cor nova do novo céu, e aos galhos a flexibilidade do exercício dos ventos da terra grande. No meio das nossas florestas queremos que esta única árvore tenha em plena vida o aspecto decrépito, de folhas poeirentas e galhos ressequidos.
Mas, como é inevitável a acção influente mas insensível da vida, o nosso pertinaz apego a todas as formas clássicas dá-nos ao estilo linguístico aquela mescla de arcaico e de novo, de raro e de quotidiano, que na arquitectura se chama o estilo rococó. Escrevemos uma terceira língua que não é a dos modelos que imitamos, nem a do tempo em que vivemos. É o idioma da seita gramatical.
Da "Revista", n.º 13, Rio, Abril de 1920, pág. 136, in "Paladinos da Linguagem", 3.º vol., A