A nossa querida língua - Antologia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A nossa querida língua

Eu amo tanto a nossa língua, esta nossa querida língua portuguesa! — fidalga de nascença pelos pais, cedo emancipada e logo rica, modesta no aspecto, dada no trato, grave no som, sóbria na tinta, gentil de linhas, e por ser desembaraçada de partículas inúteis, precisa nos conceitos, rápida nas máximas, evidente nos contrastes; e ao mesmo tempo cândida para bucólicas, terna para lirismos, altiloqüente nas estrofes das epopéias sonorosas, esquiva no diálogo curto, avolumada no discurso lento, sacudida no remoque vivaz do termo popular, e culta em pausada escrita de humanistas; — eu amo tanto a minha língua, que era meu regalo, depois de bem a ler nos velhos mestres, apurada e saborosa, mas serena e fria, ir ouvi-la ao ar livre, por essas províncias fora, falada, cantada, rezada, à gaia gente da planície, à triste da beira-mar, à meditabunda da serra, à humilde dos povoados esconsos.

Com que gôsto vou partir para a aprender, ouvindo-a, arejada e leal, da bôca livre do povo, onde espontâneamente acodem termos incisivos e esbeltos modos de dizer, adivinhados pelo faro do instinto ao chocarrear truanices, ao estilhaçar francas alegria escantilhadas, ao soluçar dores aflitivas que desmancham os gestos e a figura, ou a espasmam em tortura muda — dores que apunhalam, sufocam e matam!

Fonte

Jornadas em Portugal [Lisboa, Aillaud e Bertrand, 1925] in José de Sá Nunes, Língua Vernácula, Porto Alegre, Ed. Livraria do Globo, 1937, p. 374 (manteve-se a grafia original da fonte utilizada).

Sobre o autor

Antero de Figueiredo (Coimbra, 1866 - Porto, 1953), foi um escritor português licenciado em letras, na Universidade de Lisboa, em 1895. Colaborou em diversas publicações periódicas, como as revistas Branco e Negro (1896-1898), Serões (1901-1911) e Atlântida (1915-1920). Da sua obra, destacam-se: Tristia (1893), D. Sebastião: rei de Portugal: 1554-1578 e Traição à Arte (1952).