Sophia de Mello Breyner: demais, outra vez - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Sophia de Mello Breyner: demais, outra vez

Relativamente a uma questão por mim apresentada, obtive a seguinte resposta (passo a transcrever ambas):

"Sophia de Mello Breyner: demais

No conto "História da Gata Borralheira", de "Histórias da Terra e do Mar" de Sophia de Mello Breyner, lê-se "...tudo para ela confusamente próximo demais e acumulado demais..." e no conto "Vila d`Arcos" da mesma obra também se lê "...onde só a pedra de armas com arruelas, grifos e leões é grande demais sobre os ferros e as madeiras...".
"Demais", nestes contextos, devia ou não ser separado?

Cristina Lourenço
Portugal

As duas frases de Sophia de Mello Breyner estão correctas.
Todos sabemos que os advérbios se juntam principalmente aos verbos para lhes modificar o sentido. Mas também se juntam aos adjectivos e a outros advérbios. Ora demais é um advérbio que aparece com os seguintes significados, geralmente: muitíssimo, intensamente; expressivamente, em demasia, demasiadamente; além disso.
Na primeira frase, liga-se a próximo e a acumulado. Na segunda frase, liga-se a grande.
Agora a prezada consulente escolha dos significados aquele que lhe parecer melhor, tendo em conta o contexto de cada uma das frases e a situação em que a autora as emprega, o que só se vê em presença do texto.

M.R.L.

Contudo, continuo a não aceitar a resposta apresentada, por me parecer que, com o sentido de demasiadamente, excessivamente (aquele que se adequa ao contexto) não existe de mais como advérbio, mas sim como locução adverbial (separado, portanto!).
Continuo a considerar que, em todas as frases dos excertos apresentados, de mais deve ser separado, como locução adverbial. Gostaria de saber a vossa opinião.
Tenho pena de ter de esperar tanto tempo pela resposta, apesar de compreender os motivos.
Muitos parabéns pelo Ciberdúvidas!

Cristina Lourenço Rio Tinto, Portugal 5K

Muito grato lhe estou pela sua discordância. É com os que discordam de mim que eu aprendo: obrigam-me a observar, a pensar, a estudar e a resolver. E agora vou comunicar o que resolvi.
As grafias demais e de mais têm levado muita gente a pensar. Mas deixam de pensar, quando consultam "O Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa" de Rebelo Gonçalves, organizado conforme o acordo ortográfico vigente, datado de 1945.
Diz o referido tratado (1947), na pág. 248, em nota ao vocábulo demais: «Advérbio, conjunção, pronome e elemento de várias locuções: ao demais, demais a mais, demais disso. Cf. a locução de mais, a que se contrapõe de menos e que, por sua vez, é parte integrante da locuçãopor de menos».
1) Escreve-se demais, quando for advérbio de intensidade; ex.: Luísa comeu demais (excessivamente, demasiadamente).
2) Escreve-se de mais (separado) quando for locução adjectiva, equivalente a muitos, muitas, demasiado, demasiada, demasiados, demasiadas, etc. Neste caso opõe-se a de menos, poucos, poucas, etc.; ex.: Comprei livros de mais / de menos (= muitos/poucos).
Já apresentámos argumentos de mais (= excessivos, muitos, demasiados) / de menos (= poucos).
Vejamos então:
Em «... tudo (...) próximo demais», estamos no caso 1), em que demais significa excessivamente, demasiadamente: "tudo excessivamente, demasiadamente próximo.»
Aqui não podemos ter "próximo de mais", porque ninguém diz "próximo de menos".
Escrevermos «acumulado de mais» também não está certo, porque, se de mais se contrapõe a de menos seria correcto dizer e escrever «acumulado de menos». É evidente que ninguém o diz. Em conclusão: o correcto é próximo demais e acumulado demais, como vemos no caso 2).
Há vários adjectivos a que ligamos o advérbio demais: grande demais, comprido demais, alto demais, importante demais, influente de mais. Não dizemos nem escrevemos grande de mais, comprido de mais, etc., porque ninguém diz nem escreve grande de menos, comprido de menos, etc.
Mas dizemos e escrevemos dinheiro de mais, livros de mais etc., porque contrapomos a dinheiro de menos, livros de menos, etc.
Isto é, o advérbio demais liga-se geralmente a adjectivos; e as locuções de mais e de menos ligam-se geralmente aos substantivos.

José Neves Henriques