DÚVIDAS

«O que eu lhe digo» / «como não lho»

Sou descendente de galegos, falo galego e para mim, como para muitos galegos, escrever galego é mesmo escrever português, e falar galego é falar mais uma modalidade de português. Sou lusófono, mas aprendi a escrever de forma autodidacta.

Na fala popular da Galiza são ainda frequentes frases como:

– Nunca faz o que lhe eu digo.
– Como lho não disseram, foi-se.

Procurei nas gramáticas (Cunha e Cintra) e alí só se referiam a tais interpolações de passagem, dizendo delas que eram empregadas pelos escritores da língua, nomeadamente em Portugal.

Nos cancioneiros medievais são construções frequentes, e também em escritores portugueses clássicos e modernos as tenho encontrado. Também li que na fala moderna em Portugal quase já se não empregam, se bem que em cantigas populares apareçam estas estruturas, a meu ver de grande beleza.

A pergunta é: Ainda existem na fala, mesmo que fosse a fala mais popular das aldeias mais afastadas? É estilisticamente correcto levá-las à escrita? Em que tipo de linguagem: literária, académica, científica? O seu emprego sistemático pode resultar abusivo?

Muito obrigado pela sua gentileza.

Resposta

São ainda frequentes e literárias, de facto, embora menos usuais que «o que eu lhe digo» ou «como não lho». Pode usar tais construções em qualquer situação, apesar do seu sabor algo antiquado. Convém variar a colocação de tais pronomes, já que a nossa língua possui tal liberdade, o que constitui uma das suas riquezas.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa