DÚVIDAS

Muito embora?!

A resposta a Suicidou-se / se suicidou começa com «Muito embora...»; só pode ser engano, não? Neste caso, a conjunção é apenas "embora", julgo não haver "muito" nem "pouco embora", apesar de se ouvir alguns por aí (como se ouve muitas coisas...). Não é assim?

Continuem a contribuir para a definição das margens do rio que é a Língua Portuguesa.

Obrigada.

Resposta

Façamos uma análise (lógica...) da expressão muito embora.

O termo embora pode ser aplicado como advérbio, com o significado de «em boa hora» (ex.: «vamos embora»). E sabemos que os advérbios admitem grau, nomeadamente o superlativo absoluto analítico (neste caso, com o sentido, p. ex.: `vamos muito oportunamente´).

Já se embora for aplicado como conjunção, com o significado, por exemplo, de «ainda que» (ex.: «embora longe, estou perto»), a substituição de “embora” por “muito embora” e esta última palavra por “ainda que”, daria: «muito ainda que longe, estou perto» o que é inaceitável, dando razão às dúvidas da consulente.

Só que a língua não deve ser analisada com processos matemáticos, companheira de dúvidas Paula. A expressão muito embora, aplicada como locução conjuncional concessiva, foi registada em 1966 no vocabulário de Rebelo Gonçalves e presentemente confirmada no dicionário de Houaiss com o significado, por exemplo, de «se bem que», e a frase em estudo tem na realidade o sentido: «se bem que longe, estou perto».

Os hábitos adquiridos pela comunidade culta legitimam, com o uso continuado, determinadas expressões aparentemente ilógicas.

«Um rio sem margens desaparece...»; estamos de acordo. Mas também só é rio, se for fluindo sempre...

Ao seu dispor,

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa