Frase sobre Santo António de Lisboa - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Frase sobre Santo António de Lisboa

Na cripta da Igreja de Santo António, em Lisboa, encontra-se uma lápide em mármore com as seguintes palavras latinas:

«Nascitur. Hac. Parva. Ut. Tradunt. Antonius. Aede. Quem. Coeli. Nobis. Abstulit. Alma. Domus» (Alberto Pimentel, Livro das Lágrimas, Lisboa, Livraria Editora Mattos Moreira, pág. 48; ver também aqui).

Segundo parece, a sua tradução será:

«Nesta casa, segundo a tradição, nasceu e viveu António, que foi roubado pela gloriosa morada do Céu» ("Santo tem igrejas em Lisboa e Pádua", Diário de Notícias, 12/06/2012).

Teria todo o gosto em saber se esta tradução está bem feita. Muito obrigado.

Pedro Lourenço Trabalhador Lisboa, Portugal 4K

A tradução referida pelo consulente merece alguns comentários. Para apimentar a questão, vou compará-la com outra versão, da autoria de Silva Pinto, que consta na sua obra Santos Portugueses, publicada em 1895.

Reza assim a tradução deste escritor luso, que anda um tanto esquecido: «Nesta pequena casa, segundo referem, nasceu António, aquele que a celestial morada nos arrebatou.»

Para efeito de comparação, a tradução apontada pelo consulente será designada por V1, e a versão de Silva Pinto, por V2. Confrontem-se então, ponto por ponto:

Nascitur – Ambas as versões traduzem este presente histórico («nasce») pelo pretérito perfeito («nasceu»), o que me parece uma boa opção. O que julgo estranho e inaceitável é o facto de a versão V1 acrescentar um verbo («viveu») que não se encontra no original latino... Ter‑se‑á baseado noutra versão?

hac parva aede – A versão V1 omite o adjetivo parva («pequena»), o que é reprovável. Ambas as versões traduzem aede por «casa», mas geralmente aedes significa «templo» no singular e «casa» no plural. Neste caso, como aedes se encontra no singular, seria mais curial traduzir por «templo», ou mesmo por «igreja», até porque é disso que se trata. No entanto, como esta igreja, ao que parece, foi construída no local onde antes se situava a casa da família Bulhões, pode aceitar-se a tradução «casa» num contexto histórico mais alargado. Uma alternativa um tanto ousada, mas aceitável, para escapar a esta ambiguidade, seria traduzir por «local», como faz uma versão espanhola que consultei, a qual, no entanto, apresenta graves defeitos noutros pontos.

ut tradunt – Neste ponto, está melhor a versão V1 («segundo a tradição») do que a V2 («segundo referem»), que peca por ser demasiado literal.

quem nobis abstulit – Neste passo, está muito melhor a versão V2 («aquele que nos arrebatou») do que a V1 («que foi roubado»), a qual, além de omitir o pronome nobis, que é importante neste enunciado, traduz abstulit por um verbo que, no contexto em questão, me parece desastrado...

coeli alma domus – A versão V2 omite o adjetivo alma, o que é reprovável, ao contrário da V1, que o traduz primorosamente («gloriosa»). Por outro lado, a versão V1 traduz coeli literalmente («do céu»), enquanto a V2 prefere vertê-lo por um adjetivo («celestial»), o que me parece preferível.

Resumindo, ambas as versões apresentam omissões e opções objetáveis, mas a V2 (a de Silva Pinto) parece-me mais aceitável.

Resta-me apresentar a minha própria versão: «Segundo reza a tradição, foi nesta pequena igreja que nasceu António, que nos foi arrebatado pela gloriosa morada celestial.» No entanto, atendendo ao que foi dito sobre aedes, e ao facto de o santo não ter nascido na igreja, mas numa casa situada no local onde mais tarde aquela foi edificada, talvez seja preferível estoutra versão: «Segundo reza a tradição, foi nesta pequena casa que nasceu António, que nos foi arrebatado pela gloriosa morada celestial.»

Gonçalo Neves