Briefing - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Briefing

Em Paris, ouço por vezes notícias de Portugal. Ontem, ao fim de jantar, liguei para a SIC. Em meia hora, dez vezes a palavra briefing. Será culto de pedantismo ou estará a língua portuguesa moribunda?

Américo de Carvalho França 5K

Parece que a palavra inglesa brief se infiltrou na língua portuguesa, há coisa de trinta anos, através do mundo da publicidade.
   Brief significa sumário, síntese ou declaração resumida. No contexto da actividade publicitária, o brief é o documento que sintetiza as orientações estratégicas que devem presidir à elaboração de uma dada campanha publicitária.
   Provavelmente, como as primeiras pessoas que se confrontaram com o termo sabiam tão pouco de português como de inglês, a palavra ficou. Não se trata, aliás, de um fenómeno especificamente português. A dificuldade de encontrar um equivalente óbvio em algumas (ou muitas) línguas locais levou à internacionalização da palavra brief, de modo que ela é hoje correntemente utilizada em países tão diversos como a Suécia, a França, a Alemanha, a Itália, a Índia, a Argentina ou Singapura.
   É interessante notar três fenómenos linguísticos decorrentes da integração da palavra brief no vocabulário comum dos publicitários.
   O primeiro é a confusão corrente entre brief e briefing, palavras que tendem a ser usadas como equivalentes. Na realidade, não é assim: brief é um conjunto de instruções orais ou escritas; briefing é o acto de comunicar essas instruções, o que implica a relevância do contexto global em que isso acontece. Assim, o brief é passado numa reunião de briefing.
   O segundo é o recurso, por arrastamento, à palavra debrief, querendo com isso significar o acto de questionar os fundamentos ou as conclusões de um determinado brief. Esta prática tem uma correspondência estreita com a língua inglesa, na qual a expressão debrief é utilizada na terminologia militar para significar o acto de interrogar alguém tendo em vista clarificar o propósito ou o detalhe de certas instruções.
   O terceiro é a invenção do repelente verbo "brifar", um aportuguesamento do inglês to brief. Assim, diz-se correntemente nas agências de publicidade: "vou brifar os criativos".
   Quanto à utilização da palavra brief nos noticiários, trata-se de um fenómeno recentíssimo, provavelmente induzido pelos briefs da NATO durante as guerras nos Balcãs.
   Nesta acepção, um brief não é senão um ponto de situação sintético dirigido aos jornalistas por responsáveis políticos a propósito de um determinado acontecimento que, em dado momento, concita as atenções dos media.
   Esta situação faz-nos lembrar um pouco aqueles emigrantes que, pobres em instrução e em vocabulário, assimilam prontamente (e sem resistência) as palavras estrangeiras, o que os leva a dizer, por exemplo: "estava empregado no bâtiment, mas depois fui para o chômage. Algo semelhante acontece com os futebolistas portugueses que vão jogar para o estrangeiro. Ao fim de dois meses em Espanha já dizem "não passa nada" em vez de "não há problema".
   Para não ir mais longe, note-se a diferença de atitude dos brasileiros que, mesmo quando já vivem em Portugal há vinte anos, conservam não só a sua pronúncia original como muitas expressões idiomáticas do seu país natal.
   Parece claro que as causas fundamentais desta permeabilidade do falar português a palavras ou expressões estrangeiras devem ser buscadas na ignorância associada à falta de auto-estima. Vai daí, o mimetismo linguístico é utilizado como estratégia destinada a facilitar a integração numa comunidade estranha. Esta forma de aculturação funciona, como se vê, tanto para comunidades nacionais como para comunidades profissionais.
   Dito isto, que fazer? Para diferentes situações, diferentes soluções.
   Na actividade publicitária, a palavra brief transformou-se numa expressão de carácter técnico. Ganhou, assim, conotações próprias distintas das palavras "resumo" ou "síntese", por exemplo. Por isso, e também por se tratar já de um hábito de décadas, seria tolice tentar forçar a utilização de qualquer outra alternativa. Enquadram-se neste mesmo caso outras eventuais utilizações profissionais.
   É diferente o caso das conferências de imprensa a que alude a pergunta, dado que o pretensiosismo parece ser a única motivação para se usar a palavra briefing neste contexto.
   "Conferência de imprensa", "ponto de situação" ou mesmo "relatório de progresso" servem perfeitamente para designar a situação em causa. Mas, é claro, nenhuma destas expressões é tão brief.

João Pinto e Castro