Bagdade + antropónimos + topónimos - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Bagdade + antropónimos + topónimos

Oiço tanto pronunciar /Bágdad/ (com o d final mudo) como /Bagdáde/ (com a tónica prolongada no final). Aliás, há jornais portugueses que escrevem Bagdad, e outros, Bagdade. Como deve ser fonética e ortograficamente?

Qual a regra destes topónimos/nomes de origem estrangeira não aportuguesados e com outros como Kremlin, Dusseldorf, Putin, Bush, etc.?

Aliás, há outros casos similares ao de /Bagdad/ e/ou /Bagdáde/. Por exemplo : diz-se /David/ (com o d mudo) ou /Davide/ (com o som "de")? /Jacob/ ou /Jacobe/?

Muito obrigado e... bem hajam.

Armando Dias Aduaneiro Lagos, Portugal 4K

Bagdade é um topónimo adaptado gráfica e foneticamente à língua portuguesa, que aparece no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, não como entrada lexical mas fazendo parte da definição de bagdali: «natural ou habitante de Bagdade». Sendo uma palavra que acaba na sílaba -de, não há motivo nenhum para que ela não seja pronunciada. Seguindo a regra geral de acentuação em português, é uma palavra grave (com o acento tónico na penúltima vogal -a-).

Kremlin surge, no mesmo dicionário, com indicação de que a vogal tónica é [-e-] e a última sílaba é pronunciada da seguinte forma: [-lin]. Como diz o Prof. Peixoto da Fonseca em resposta anterior, «sempre que possível devem usar-se aportuguesamentos».

A respeito dos antropónimos e topónimos em geral, acho de todo o interesse o seguinte artigo sobre o Acordo Ortográfico:

Câmara aprova Acordo Ortográfico
A Câmara dos Deputados aprovou, dia 21/02/2001, o acordo ortográfico da língua portuguesa, assinado em Lisboa, em 1990. A exemplo do Brasil, os outros sete países onde o português é a língua oficial: Portugal, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor- Leste, também estão adotando o vocabulário ortográfico comum, nos termos do acordo. A reforma ortográfica, que atinge apenas 2% da escrita, deixa praticamente intactas as regras de acentuação gráfica, mas suprime o trema, simplifica as regras do hífen e elimina as consoantes mudas, como a letra c da palavra exacto. Para colocar o novo acordo em prática, o deputado José Lourenço (PMDB-BA), nascido em Portugal, sugeriu, durante encontro com o presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, a unificação dos livros de Português, Matemática e Ciências do ensino fundamental a serem usados pelos oito países. O acordo agora deverá ser ratificado pelo Senado Federal.
O texto a seguir, repassado por José Félix, de Portugal, a Eliane Malpighi, está publicado com o título: Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, E. P., Lisboa , 1991.

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)
Base I

Nomes próprios estrangeiros e seus derivados:

As letras K, W e Y usam-se nos seguintes casos especiais: 
– Em antropónimos/antropônimos originários de outras línguas e seus derivados: Franklin, frankliniano; Kant, kantiano, Darwin, darwiniano; Wagner, wagneriano; Byron, byroniano; Taylor, taylorista;

– Em topónimos/topônimos originários de outras línguas e seus derivados: Kwanza, Kuwait, kuwaitiano; Malawi, malawiano;

Em congruência com o número anterior, mantêm-se nos vocábulos derivados eruditamente de nomes próprios estrangeiros quaisquer combinações gráficas ou sinais diacríticos não peculiares à nossa escrita que figurem nesses nomes: comtista, de Comte, garrettiano, de Garrett; jeffersónia/jeffersônia, de Jefferson; mülleriano, de Müller, shakespeariano, de Shakespeare.

Os vocábulos autorizados registarão grafias alternativas admissíveis, em casos de divulgação de certas palavras de tal tipo de origem (a exemplo de fúcsia/fúchsia e derivados, buganvília/buganvílea/bouganvíllea).

Os dígrafos finais de origem hebraica ch, ph, e th, podem conservar-se em formas onomásticas da tradição bíblica, como Baruch, Loth, Moloch, Ziph, ou então simplificar-se: Baruc, Lot, Moloc, Zif. Se qualquer um destes dígrafos, em formas do mesmo tipo, é invarialvelmente mudo, elimina-se: José, Nazaré, em vez de Joseph, Nazareth; e se algum deles, por força do uso, permite adaptação, substitui-se, recebendo uma adição vocálica: Judite, em vez de Judith.

As consoantes finais grafadas b, c, d, g, e t mantêm-se, quer sejam mudas quer proferidas nas formas onomásticas em que o uso as consagrou, nomeadamente antropónimos/antropônimos e topónimos/topônimos da tradição bíblica: Jacob, Job, Moab, Isaac, David, Gad; Gog, Magog; Bensabat, Josafat. Integram-se também nesta forma: Cid, em que o d é sempre pronunciado; Madrid e Valladolid, em que o d ora é pronunciado, ora não; e Calecut ou Calicut, em que o t se encontra nas mesmas condições. Nada impede, entretanto, que dos antropónimos/antropônimos em apreço sejam usados sem a consoante final: , Davi e Jacó.

Recomenda-se que os topónimos/topônimos de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando estas sejam antigas e ainda vivas em português ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente. Exemplo: Anvers, substituído por Antuérpia; Cherbourg, por Cherburgo; Garonne, por Garona; Genève por Genebra; Jutland por Jutlândia; Milano por Milão.

Aconselho também a leitura do livro de Edite Estrela e J. David Pinto Correia Guia Essencial da Língua Portuguesa para a Comunicação Social [Edição do II Congresso dos Jornalistas Portugueses, Lisboa, 1988], que aborda estes temas, assim como uma resposta anterior do Ciberdúvidas intitulada Antropónimos Estrangeiros.

Maria Celeste Ramilo