Virgílio Catarino Dias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Virgílio Catarino Dias
Virgílio Catarino Dias
1K

Virgílio Catarino Dias é licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Mestre em língua portuguesa e didáctica pela UBI. Fez Estudos Humanísticos nos Jesuítas (9 anos), onde, entre outros, foi aluno de João Mendes (Literatura Portuguesa) e de António Freire (Latim e Grego). Prepara a publicação de uma Gramática Explicativa da Língua Portuguesa.

 
Textos publicados pelo autor

Réplica do autor à discordância do consulente Fernando Bueno, sobre a resposta A construção impessoal reflexa.

E ainda bem que discorda, Sr. Engenheiro! Nem precisa de pedir licença. Sempre que discordar, faça favor de o dizer, que da discussão pode nascer mais luz. Eu gosto de ser entendido!

Nesta frase, a função do constituinte preposicionado «na praia» poderia, de facto, ser um adjunto adverbial de lugar, mas em frases do tipo: «João apoia, na praia, turistas estrangeiros». Em tal caso, o GP (grupo preposicionado) «na praia» seria um sintagma, logo, uma unidade de análise: adjunto adverbial de lugar.

Mas, ao falarmos em vida na praia – ou em vida na cidade, vida na terra, vida espiritual, ou, como Graciliano Ramos, em vidas secas, estamos a falar de nomes especificados por constituintes que lhes mudaram o conceito.

Neste segmento de frase «carregando cartazes de apoio à vida na praia», o SP à vida na praia é, como diz a Lailiane, complemento nominal (selecionado pelo nome apoio): cartazes que apoiam a vida na praia. Mas na análise sintática não podemos separar constituintes de cuja união resultou um novo conceito: vida na praia é um tipo de vida que, como dissemos antes, nada tem a ver, por exemplo, com outros tipos de vida: vida na marinha, vida na miséria, vida de artista, vida de poeta, etc.

Os constituintes modificadores só são adjuntos adverbiais se forem opcionais. Ora, quando um constituinte preposicionado, como é aqui o caso, se junta a um nome e gera um novo conceito, ele não é opcional e, logo, não pode ser descrito como adjunto adverbial.

«A vida é muito curta para ser pequena».

Antes de mais, devemos tentar compreender o sentido desta frase. No seu predicado confrontam-se dois conceitos: a brevidade da vida e, como consequência, a necessidade da sua grandeza.

Entendida deste modo, a descrição sintáctica é: Suj.: a vida; pred.: é muito curta para ser pequena

Entendemos que a função sintática daquele SP (sintagma preposicionado) «para ser pequena» é a de adjunto circunstancial consecutivo.

Poderíamos, também, descrevê-lo como adjunto circunstancial relativo: a vida é curta quando relacionada com a dignidade, ou grandeza, que dela se espera.

A vida é curta [para ser pequena] - como poderia ser curta [para a alegria] ou curta [para ler). Mas a mesma vida também é longa para outras coisas: longa [para sofrer], por exemplo.

Assim, a vida pode ser curta ou longa, conforme os termos com que a confrontemos (relacionemos).

Por estes dois motivos, atribuímos ao SP «para ser pequena» a possibilidade de ser interpretado como adjunto circunstancial consecutivo ou relativo.

Logo, à pergunta «é causal a oração subordinada?» respondemos que não. Não é por causa de ser pequena que a vida é curta; também não é uma oração final: a vida não é curta para ser pequena.

Nota final: Todos reconhecemos que a alma humana é insondável. Por isso, aceitamos que a frase, que é a sua expressão, seja, por vezes, de análise muito discutível. Um teorema matemático demonstra-se; a frase, como expressão individual, está, muitas vezes, para lá das possibilidades da nossa análise. A sintaxe é busca incessante, e apaixonante, do sentido que se oculta em cada frase.

Sim, trata-se de uma frase gramatical e, por isso, aceitável.

A frase é composta, e o verbo da oração principal tem como complemento direto uma oração subordinada completiva infinitiva: As asas e antenas dos insetos fazem-[os parecer-me repulsivos]=[fazem eles parecer-me repulsivos]=[fazem com que eles me pareçam repulsivos].

Assim, já será bem compreensível a seguinte descrição sintática: suj.: as asas e antenas dos insetos; pred.: fazem-nos parecer-me repulsivos; compl. direto: -(n)os parecer-me repulsivos.

Mas expliquemo-nos um pouco mais claramente: existem em português orações infinitivas que, como em latim, têm o sujeito em acusativo e o verbo no infinito.

Observemos, a este propósito, a frase seguinte:

Hoje estive com o Pedro, na escola. Não o vi riscar o teu nome.

A frase em bold (negrito) , composta, tem, no seu predicado, o verbo ver e, como complemento direto, uma oração infinitiva: Não vi [ele riscar o teu nome]. Não é aceitável a hipótese de que o pronome o (ele) seja complemento direto do verbo ver. Porquê? Se estive com o Pedro, não podemos dizer que não o vi. O que aconteceu foi que eu não vi [ele riscar o teu nome].

Por isso, aquela frase só pode ser analisada assim: Suj.: eu; pred.: não o vi riscar o teu nome; o riscar o teu nome: compl. direto.

- o riscar o teu nome: oração subordinada infinitiva. Sujeito: o (sob a forma de complemento, própria do sujeito das orações infinitivas) ; pred.: riscar o teu nome; o teu nome: compl.: direto.

Repetimos: seria errado atribuir ao o (não o vi riscar o teu nome) a função de complemento direto do verbo ver. Aquele pronome é sujeito do verbo riscar.

E, agora, já podemos regre...

Réplica do autor à divergência do consulente João de Brito, O predicativo do sujeito, os modificadores e o «se.

 

Li muito atentamente os seus reparos, e eu vou reparar bem neles, de início, a partir do nº.3 e, mesmo no final, não descurarei o nº.1.

E reparei, antes de mais, na sua afirmação inicial:

«Tal como se conhece, o predicativo do sujeito integra sempre o predicado».

Não deveria ter escrito «como se conhece», mas «como eu o conheço» — o que faz uma diferença muito grande.