Anaísa Gordino - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Anaísa Gordino
Anaísa Gordino
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Licenciada pela Universidade Nova de Lisboa em Línguas e Literaturas Modernas, major em Estudos Portugueses e Franceses e minor em Linguística.

 
Textos publicados pela autora

Para além das palavras compostas, há diversas palavras derivadas por prefixação que devem ser escritas com hífen. O Acordo Ortográfico de 1990 procurou, de resto, sistematizar este aspeto e (re)formular regras em relação ao emprego do hífen nas palavras formadas através de processos de derivação e de recomposição. Assim, tendo em conta o disposto na base XVI do texto do AO, deverá utilizar-se hífen em palavras derivadas nos seguintes casos:

a) Quando o segundo elemento do derivado for uma palavra começada por h (como em anti-histamínico) — exceção feita aos casos em que houve supressão do h e que já se encontram aglutinados (como desumano, inábil ou reabilitar);

b) Quando o primeiro elemento (prefixo ou pseudoprefixo) terminar numa vogal e o segundo elemento começar por vogal idêntica (como, por exemplo, em anti-inflamatório ou contra-ataque); nos casos em que, apesar de termos duas vogais idênticas adjacentes, já se procedeu à aglutinação, ela deverá manter-se (são exemplo disso os prefixos co-, re- e pre-, que, em muitos casos, já surgem aglutinados à palavra-base, como em cooperar, reeleito, preencher), considerando o AO que o prefixo co-, em particular, se aglutinará em geral à palavra-base, mesmo que esta comece pela vogal o;

c) Nas palavras formadas c...

O consulente levanta várias questões importantes, sobre as quais muita tinta tem corrido (nomeadamente, sobre o alegado papel das consoantes mudas na abertura das vogais que as precedem), questões que procurarei explicitar de forma breve e clara, mas também tão completa quanto possível (embora muito mais se pudesse dizer), de modo a que não restem dúvidas.

Em primeiro lugar, quanto à questão da dupla grafia, é preciso referir que existem duas situações:

a) Dupla grafia em espaços geográficos diferentes, dado as diferentes variantes do português apresentarem, para uma mesma palavra, pronúncias distintas; neste caso, distingue-se a variante luso-africana da variante brasileira, apresentando cada uma destas variantes a sua grafia própria para a palavra. É exemplo deste tipo de situação a dupla grafia da palavra facto/fato, que é grafada como facto em Portugal (ou seja, o c tem de ser mantido, pois é pronunciado) e fato no Brasil (o c não se pronuncia na variante brasileira, logo, foi eliminado);

b) Dupla grafia no mesmo espaço geográfico, dado os falantes apresentarem oscilações de pronúncia dentro de uma mesma variante, neste caso, a portuguesa; é neste tipo de situação que se inscreve espectador/espetador, um caso de dupla grafia dentro da nossa variante, o que, na prática, significa que, em Portugal, os falantes poderão escrever a palavra com ou sem c, consoante o pronunciem ou não.

Em segundo lugar, quanto à questão da necessidade da manutenção das consoantes mudas (c ou p) para abrir a vogal anterior, como o consulente diz, muitos de nós aprenderam, «corretam...

Conforme refere a consulente, citando, e bem, a Base XVI do texto do Acordo Ortográfico, nas palavras em que temos um prefixo ou pseudoprefixo associado a um elemento começado por h, aquilo que se prevê é a manutenção do hífen.

Penso que a dúvida se prenderá com a consulta de uma fonte em que, por lapso, a forma arqui-hipérbole surge dada como exemplo de manutenção do hífen, mas aparece grafada sem hífen (ou seja, arquihipérbole, uma forma impossível em português, dado não termos palavras com h medial, a não ser nos dígrafos ch, lh e nh), algo que deverá ser corrigido.

Assim, a grafia de uma palavra como arqui-hipérbole deverá obrigatoriamente ter hífen, inscrevendo-se precisamente no mesmo paradigma dos restantes casos mencionados na Base XVI.

Um dos critérios de base para as alterações previstas no novo Acordo Ortográfico é, como, sabemos, a fonética; como tal, não se pretende alterar a pronúncia das palavras mas, sim, preservar essa mesma pronúncia. Ao eliminar o hífen de palavras que eram anteriormente hifenizadas, este critério tem também de ser respeitado.

Assim, neste caso, bem como em todos os casos em que um prefixo ou pseudoprefixo se junta a uma palavra começada pela consoante r (ou pela consoante s), aquilo que o Acordo Ortográfico estipula é que se dobre essa consoante, conforme indicado na Base XVI, artigo 2.º, alínea a):

2.º Não se emprega, pois, o hífen:

a) Nas formações em que o prefixo ou falso prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, devendo estas consoantes duplicar-se, prática aliás já generalizada em palavras deste tipo pertencentes aos domínios científico e técnico. Assim: antirreligioso, antissemita, contrarregra, contrassenha, cosseno, extrarregular, infrassom, minissaia, tal como biorritmo, biossatélite, eletrossiderurgia,

Relativamente à questão sobre a ortografia de pequeno-almoço, que, refira-se, já surgia grafado com hífen antes do Acordo Ortográfico, deverá manter-se a utilização do hífen, funcionando este vocábulo como um composto por justaposição (segundo a designação tradicional, utilizada no Acordo Ortográfico) e sendo os compostos por justaposição hifenizados, conforme estipulado no artigo 1.º da base XV.

Quanto aos casos de alho-francês, feijão-preto, feijão-vermelho e feijão-branco, o texto do Acordo Ortográfico refere que se deve empregar hífen «nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento» (ver artigo 3.º da base XV). Todos os vocábulos que refere se inserem na área da botânica, à semelhança de feijão-verde (que surge como exemplo no texto do Acordo), pelo que todos deverão ser hifenizados segundo a nova norma, ainda que antes do Acordo tivessem oscilações quanto à hifenização: alho-francês era registado com hífen já com alguma sistematicidade, mas feijão-preto, feijão-vermelho e feijão-branco, ou o referido feijão-verde, tipicamente eram grafados sem hífen em Portugal, surgindo já com hífen no Brasil, nomeadamente em dicionários de referência, como o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2003).

Poderia levantar-se a questão de feij...