Anaísa Gordino - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Anaísa Gordino
Anaísa Gordino
986

Licenciada pela Universidade Nova de Lisboa em Línguas e Literaturas Modernas, major em Estudos Portugueses e Franceses e minor em Linguística.

 
Textos publicados pela autora

A utilização de maiúscula nos pontos cardeais e colaterais e seus equivalentes é muito restrita e é devidamente explicitada no texto do Acordo Ortográfico. Na base XIX, artigo 2.º, alínea g), define-se que a maiúscula deve ser usada «nos pontos cardeais [e colaterais] ou equivalentes, quando empregados absolutamente: Nordeste, por nordeste do Brasil, Norte, por norte de Portugal, Meio-Dia, pelo sul da França ou de outros países, Ocidente, por ocidente europeu, Oriente por oriente asiático». 

Assim, quando designam regiões geográficas específicas, e só nesses casos, deverá utilizar-se a maiúscula nos pontos cardeais e colaterais, usando-se minúscula em todos os outros, ou seja, quando designam efetivamente pontos cardeais e colaterais. Os exemplos que refere inserem-se dentro deste segundo grupo, pelo que deverão grafar-se com minúscula, à semelhança, aliás, do que já estava estipulado no Acordo de 1945, no qual se previa igualmente o uso de maiúscula apenas para designar regiões.

Note-se ainda que, nas abreviaturas, se deverá manter a maiúscula, à semelhança do que também já acontecia antes do Acordo de 1990. Não estamos aqui perante uma nova regra e, sim, perante uma recapitulação ou um reforço de uma regra já estabelecida, mas, eventualmente, nem sempre respeitada.

O Acordo Ortográfico prevê que os nomes de cursos e disciplinas possam, opcionalmente, ser designados com minúscula ou maiúscula, conforme se pode ler na Base XIX, artigo 1.º, alínea g), na qual é mencionado o exemplo de Línguas e Literaturas Modernas, que pode ser grafado como línguas e literaturas modernas.

Não se trata, pois, de uma mudança obrigatória e, sim, de um uso facultativo de minúscula, que não exclui a utilização da maiúscula, pelo que não se prevê que tenha de haver qualquer alteração a esse respeito.

A questão é pertinente, já que o problema que se coloca não é simplesmente identificar o tipo de constituintes envolvidos (substantivo-substantivo, substantivo-adjectivo, adjectivo-adjectivo e assim por diante), mas, sim, o tipo de estrutura interna e de relação entre os elementos dos compostos.

No tratamento dos compostos morfossintácticos, podemos identificar diferentes comportamentos (que não serão analisados aqui na sua totalidade), os quais têm reflexo na forma como é feita a flexão, interessando-nos distinguir, para esta questão em particular, dois tipos:

a) compostos constituídos por dois substantivos, cuja estrutura interna corresponde a uma estrutura de adjunção, ou seja, em que o núcleo do composto surge à esquerda, e o elemento da direita se comporta como um adjunto, dando informação adicional sobre o núcleo; neste caso, a flexão é feita apenas no núcleo do composto e é precisamente nesse caso que se inscrevem todos os exemplos que dá, pelo que a forma corre{#c|}ta do plural destes compostos será eleitores-fantasma, empresas-fantasma, cidades-fantasma e crianças-soldado;

b) compostos que podem ser constituídos por substantivos ou adjectivos, designados como estruturas de conjunção ou como compostos coordenados, isto é, cuja estrutura interna é uma estrutura de coordenação, não sendo possível identificar um núcleo; assim, no plural, ambos os elementos recebem a marca de flexão em número, sendo disso exemplo compostos como autor-compositor (sequência de dois substantivos), cuja forma do plural é autores-compositores, ou surdo-mudo (formado por dois adjectivos), cujo plural é surdos-mudos.

Note-se que, em análises gramaticais mais recente...

A formulação que refere é uma formulação possível em português, mas que é vulgarmente utilizada nas datas escritas por extenso na transcrição de actas ou em certos documentos legais, como as escrituras; nestes casos, a data é, aliás, geralmente escrita por extenso na sua totalidade (e. g.: «aos vinte e três dias de Abril de dois mil e dez»).

Nas restantes situações, entre as quais a correspondência, mesmo formal, a fórmula consagrada consiste na indicação do local de emissão, separado da data por uma vírgula, escrevendo-se primeiro o dia, depois o mês e, por fim, o ano, sendo estes elementos ligados pela preposição de (por exemplo: «Lisboa, 23 de Abril de 2010»). Como se pode ver, nestes casos, o dia e o ano são notados através de dígitos, sendo apenas o mês escrito por extenso; para além disso, ao contrário do que acontece numa escrita mais abreviada, não se coloca o zero antes do dígito que indica os dias (veja-se «Lisboa, 3 de Abril de 2010»).

Quanto às datas escritas apenas com dígitos, a norma internacional (ISO 8601) e a própria norma portuguesa (NP EN 28601) preceituam que a ordem é inversa, ou seja, ano, mês e dia (2010-04-23), embora o peso do costume mantenha corrente a ordem dia, mês e ano (23-04-2010).

Para concluir, penso que a questão que apresenta é sobretudo de ordem estilística e prende-se com o efeito que pretende criar junto de quem lê a sua carta. Penso, contudo, que, apesar de pretender um efeito clássico e distinto, a formatação «Lisboa, 23 de Abril de 2010» será a mais adequada para correspondência. Ressalve-se ainda que a utilização da forma abreviada da data, particularmente vulgarizada na correspondência comercial, não é necessariamente sinónimo de informalidade. Em suma, tudo depende da adequação ao contexto em que se e...