Uma (exemplar) decisão política - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Uma (exemplar) decisão política
Por SB/CMC 1K

 

Lisboa, 03 Out (Lusa) – A decisão de um governador brasileiro de limitar a utilização do gerúndio, por ser uma forma verbal associada à ineficiência, é considerada por linguistas portugueses como unicamente política, visto que é uma construção verbal existente no português.

O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, demitiu por decreto o uso do gerúndio nos órgãos do governo e proibiu o uso do gerúndio para desculpa de ineficiência.

O político alegou que perdeu a paciência com alguns assessores que estão sempre «fazendo, providenciando, estudando, preparando, encaminhando», mas nunca concluem um trabalho ou estabelecem um prazo para a sua finalização.

José Mário Costa, jornalista e responsável pelo site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, disse à agência Lusa que a medida adoptada só pode ser vista como «simbólica».

Também a professora e linguista Regina Rocha, do Ciberdúvidas, considera que o decreto apenas é válido num contexto político.

«O gerúndio é uma forma verbal que sugere duração e prolongamento da acção» e é uma «construção que vem do português antigo», acrescentou.

Estes dois especialistas recordam que em Portugal o gerúndio caiu em desuso, utilizando-se, em seu lugar, o infinitivo.

«Ou seja, em vez de dizermos "estou fazendo", dizemos "estou a fazer"», exemplificou.

Regina Rocha esclareceu que a própria fonética dos verbos conjugados no gerúndio transmite a ideia de prolongamento, dado que têm mais sílabas.

Sobre a ideia do governador brasileiro, José Mário Costa defendeu a existência de orientações do ponto de vista ortográfico a serem seguidas, nomeadamente pelas entidades públicas, jornais e televisões.

O jornalista deu como exemplo o erro comum de abreviar os números ordinais.

José Mário Costa explicou que se escreve muitas vezes primeiro com um (1) numérico e um (º) em expoente, quando deveria ser um (1) numérico seguido de um ponto (.) e só depois o (º) em expoente: «1.º [primeiro] não é mesma coisa do que 1º [um grau].»

As abreviaturas são sempre seguidas de um ponto, referiu.

Ler também: Machada no gerundismo
 

Fonte

notícia da Agência Lusa, de 3 de Outubro de 2007