Pobre Chipre! - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Pobre Chipre!

Como se não constituísse já desgraça suficiente passar a ser conhecido para sempre como «a lavandaria da Europa» (ou da Rússia?), Chipre continua muito maltratado nas televisões portuguesas. Até aos naturais da ilha alguns jornalistas atribuíram um estranhíssimo gentílico — como se assinala nesta crónica publicada pelo autor no jornal "i" de 28 de março de 2013

 

Pobre Chipre! Ficará conhecido para sempre como «a lavandaria da Europa» (ou da Rússia?) e jamais recuperará a confiança internacional. Como se isto não constituísse desgraça suficiente, foi muito maltratado por alguns jornalistas portugueses, que além de se fartarem de “analisar” o “resgate do Chipre” (assim mesmo: “do” em vez de “de”), atribuíram aos naturais da ilha um estranhíssimo gentílico: “chipriotas”.

As despenteadas cabeças despachadas às pressas para Chipre não tiveram tempo de consultar os manuais da quinta classe para verificar o gentílico correcto a aplicar ao sobressaltado, dividido e endividado país. Se tivessem utilizado cíprico ou cíprio – termos que, ao lado de cipriota, os dicionários registam – teriam pelo menos ensinado alguma coisa aos que ficaram em terra. Talvez pudessem até mencionar que, segundo a mitologia, Afrodite surgiu das águas numa praia cipriota (daí que o nome da deusa tenha sido atribuído aos campos de gás natural que ali estão a ser objecto de prospecção).

A euforia “chipriota” não durou muito, porém. O Telejornal de segunda-feira não abriu com as novidades sobre a ilha – isto foi deixado para todos os noticiários de todas as outras estações do planeta – mas com aquilo que verdadeiramente comove os portugueses: o “caso” Casa Pia. Ficou estabelecido que a tal casa de Elvas afinal é a mesma de que falava Vinícius de Morais: sem tecto, sem chão e sem paredes, simplesmente nunca existiu. Mas sabe-se a morada: “Rua dos Bobos, número zero”.

 

Sobre este mesmo tema ver, também, Morra o Chipre, viva Chipre

 

Sobre o autor

Jornalista português nascido no Brasil, é licenciado em Filologia Românica (Faculdade de Letras de Lisboa) onde lecionou Introdução aos Estudos Linguísticos, Sintaxe e Semântica do Português. Foi diretor de Informação das agências noticiosas Anop e NP, chefiou os serviços de comunicação das fundações Gulbenkian e Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi chefe de Informação (PIO) das missões de paz das Nações Unidas em Angola, Timor-Leste, Kosovo e Burundi. Foi diretor-geral da Leya em Angola.