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Pelourinho // Uso dos pronomes

Formas de tratamento em Moçambique

Tu vs.você

«O erro não está apenas numa palavra. Está na mudança indevida de tratamento dentro da mesma frase

Anda a circular este cartaz no Facebook.

Gostei da intenção e, em certa medida, até concordo com a mensagem. Quem se sente incomodado com aquilo que alguém publica tem sempre uma solução simples, higiénica e democrática: bloquear, deixar de seguir, passar à frente. O telefone é teu, o dedo é teu, a paz também devia ser tua.

Mas o cartaz original tem um erro de português que me incomodou mais do que a própria mensagem.

E, de uma vez por todas, vamos aprender.

A frase começa assim:

«Se te sentes incomodado...»

Aqui, o tratamento é por tu.

Depois continua: «podes...»

Continua por tu.

Depois diz: «no teu telefone».

Continua por tu.

Portanto, quando chega à parte da ordem, a frase tem de manter a mesma lógica:

«não permitas».

E não:

"não permita"

«Não permita» pertence ao tratamento por você. Se fosse esse o caminho, a frase teria de ser toda reescrita assim:

«Se se sente incomodado com as coisas que eu partilho, pode bloquear-me, não permita que eu o stresse. Logo no seu telefone.»

Mas como o cartaz escolheu falar por tu, então a forma correcta é:

«Se te sentes incomodado com as coisas que eu partilho, podes bloquear-me, não permitas que eu te stresse. Logo no teu telefone.»

O erro não está apenas numa palavra. Está na mudança indevida de tratamento dentro da mesma frase. Começa-se a falar com alguém por tu, depois, sem pedir licença à gramática, passa-se para você, e depois volta-se ao teu. A frase fica a andar de chapa entre dois bairros linguísticos diferentes.

Em português, a coerência também é educação.

Ou tratamos por tu, ou tratamos por você.

Misturar os dois no mesmo período é como vestir fato, gravata e chinelos de quarto para ir a uma reunião.

A mensagem podia continuar a ser provocadora. Só precisava de estar bem escrita.

Fonte

Publicação de Rui Pinto Martins no seu mural de Facebook, em 20 de junho de 2026, aqui partilhada com a devida vénia. 

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa