Pelourinho // Desvalorização da língua
Esta língua em que escrevo
Uma tímida ambição para o português
« [A língua portuguesa] parece muitas vezes ser tratada pelos seus próprios guardiões institucionais como uma herança garantida, como um património que dispensaria vigilância, cuidado e visão estratégica.
Escrevo nesta língua como quem acende um candeeiro antigo numa casa herdada dos séculos. Não a escolhi; foi ela que me escolheu antes do meu primeiro choro, antes do primeiro assombro diante do mundo, antes mesmo de eu saber que as palavras são pássaros invisíveis que transportam a alma entre as margens do tempo.
A língua portuguesa não é apenas um instrumento da fala. É uma pátria sem fronteiras, uma geografia de afectos, um oceano onde navegam memórias, pensamentos, sonhos e destinos. Nela repousam os murmúrios dos monges copistas, o génio dos poetas, o labor dos cronistas, o desespero dos amantes e a esperança dos povos. É uma construção humana tão admirável quanto as catedrais e mais duradoura do que os impérios, porque as pedras sucumbem à erosão, mas as palavras persistem no espírito dos homens.
Há línguas que dominam pela força económica, outras pela influência militar ou tecnológica. A língua portuguesa, porém, expandiu-se sobretudo pela extraordinária capacidade de acolher o mundo sem deixar de ser ela mesma. Em cada continente onde floresceu, não se limitou a impor-se; misturou-se, escutou, transformou-se e enriqueceu-se. Trouxe consigo a memória de um pequeno território atlântico e recebeu em troca as cores, os ritmos e os horizontes de inúmeros povos.
Hoje, é falada por centenas de milhões de seres humanos dispersos por vários continentes. Vive nas grandes metrópoles e nas aldeias remotas, nos livros e nas canções, nas universidades e nas ruas, nos tratados diplomáticos e nos diálogos quotidianos. É uma das mais vastas comunidades linguísticas do planeta. E, no entanto, paradoxalmente, parece muitas vezes ser tratada pelos seus próprios guardiões institucionais como uma herança garantida, como um património que dispensaria vigilância, cuidado e visão estratégica.
É este um dos traços mais antigos do carácter português: a tendência para esquecer o valor do que possui. Como o homem que atravessa diariamente uma ponte magnífica sem reparar na sua beleza, habituámo-nos à língua ao ponto de deixarmos de a contemplar. E aquilo que deixa de ser contemplado acaba frequentemente por ser negligenciado.
Não deixa de ser estranho e doloroso que um país cuja maior obra histórica foi, em larga medida, a projecção da sua língua pelo mundo revele, por vezes, tão tímida ambição na sua afirmação internacional. Estranho que se fale tanto de competitividade e tão pouco de cultura. Estranho que se reconheça o valor económico da língua apenas de forma episódica, quando ela constitui uma das mais poderosas formas de influência duradoura entre os povos.
Mais inquietante ainda é observar a forma como o ensino básico, secundário e superior frequentemente relegam a língua para uma condição utilitária. Ensina-se a gramática como mecanismo, mas nem sempre se revela o milagre. Analisa-se a estrutura, mas esquece-se a música. Explica-se a sintaxe, mas raramente se desperta a reverência. Como se a língua fosse apenas um conjunto de regras e não uma das maiores realizações espirituais da humanidade.
Uma língua não sobrevive apenas porque é falada. Sobrevive porque é amada.
Quando os jovens deixam de reconhecer nela um lugar de beleza e de pensamento, a língua empobrece, mesmo que o número dos seus falantes continue a crescer. O verdadeiro declínio de uma língua não começa nas estatísticas; começa na indiferença.
Contudo, o português permanece extraordinário. Possui a beleza filosófica que permite interrogar o ser e o destino. Possui a delicadeza necessária para nomear a ternura e a saudade. Possui a elasticidade que acolhe a ciência, a tecnologia e a inovação. Poucas línguas conseguem mover-se com igual naturalidade entre o rigor conceptual e a emoção poética.
Nela, o pensamento pode ascender à abstracção mais elevada sem perder contacto com a experiência humana. Nela, a razão e o sentimento não são inimigos irreconciliáveis, mas companheiros de uma mesma travessia. Talvez por isso os seus maiores escritores tenham compreendido que escrever em português é participar numa conversa milenar entre a lucidez e o mistério (José Saramago).
Escrevo nesta língua porque nela encontro a medida da minha humanidade. Porque nela aprendi a nomear o silêncio, a perda, o amor, a esperança e a morte. Porque nela os séculos continuam a falar aos vivos. Porque nela reconheço uma das mais nobres expressões da inteligência humana.
Mas uma língua desta grandeza não deve viver apenas da glória do passado. A memória é indispensável; a nostalgia, porém, não basta. A língua portuguesa necessita de projectos, de investimento, de diplomacia cultural, de ensino exigente, de investigação académica, de presença internacional consistente e de uma visão que ultrapasse os ciclos políticos.
Uma comunidade linguística desta dimensão não pode contentar-se com a sobrevivência quando possui vocação para a influência. Não pode limitar-se à conservação quando lhe cabe a expansão do conhecimento, da cultura e do diálogo entre civilizações.
Talvez a maior homenagem que podemos prestar à língua portuguesa não seja celebrá-la em discursos solenes, mas colocá-la no centro do nosso futuro. Não como relíquia, mas como possibilidade. Não como monumento imóvel, mas como força viva.
Cada língua é uma maneira de olhar o mundo.
E esta língua em que escrevo — feita de mar e de memória, de rigor e de sonho, de melancolia e de claridade — continua a ser uma das mais belas formas que o espírito humano encontrou para se compreender a si mesmo.
Que saibamos merecê-la.
Que saibamos defendê-la.
Que saibamos elevá-la à altura da sua própria grandeza.
N. E. – Sobre a questão da qualidade da língua, ler também, de José Pacheco Pereira, "Chover no molhado" (Público, 20/06/2026).
Texto de António Palhinha divulgado no Facebook (10/06/2026)
