Doers a doer & etc. - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Doers a doer & etc.

A língua portuguesa vale 17 por cento da economia. A headline vem no “Público” que, desenvolve o assunto, num article a páginas tantas, lá mais inside, no miolo do newspaper. A revelação (revelation?) já mereceu a lot of stories e essays na press. Este milagre deve ser o result de algum upgrading dos magnifícos and magnificents advisores que o Cabinet está sempre a contratar. Ainda agora foram mais seis, o dobro dos três leopardos do poema de Elliot. Quando Miguel Relvas cita Vergílio Ferreira e, mesmo em recinto fechado, consegue ver o mar, we have no doubt de que o rating da Língua sobe 17 por cento e mais do que os 15 e tal do desemprego. A relação é óbvia.

Num debate no parlamento sobre o triste destino da Cândida Erendira e da sua Avó Desalmada, vulgo RTP, o ex-presidente do Conselho de Administração teceu judiciosas considerações sobre as emissões free to air e a produção low cost. Para os mais distraídos ou não familiarizados com o idioma de Kate Middleton, a involuntária Lady Godiva dos paparazzi, ou de Guilherme Shakespeare e António Borges, convém notar que a primeira expressão não se refere à emissão de gazes expelidos à balda para a atmosfera. Free to air remete para um (único) canal generalista em sinal aberto para a RTP, conforme um dos propalados seis cenários do plano do ministro Miguel Relvas. Quanto à segunda quer só dizer produção baratucha, com diretos de mais uma manifestação antiausteridade via telemóvel.

Mas o que causou mais comoção nestes hard times que estamos a viver, foi ouvir o Premier citar Camões. Foi num dia claro, o céu azul, o vento de feição, o Mostrengo longe, trasladado do Cabo para Berlim, onde repousa no Reichtag. A decorrência lógica e a lei das equivalências fez com que Passos Coelho, num outro dia claro, se referisse ao seu close friend  Miguel como um doer. É verdade que dói ouvir isto mas nada de confusões. Doer é inglês, do verbo To Do, cujo tem muitas utilizações e modelações frásicas e semânticas. Até esta, a de Relvas ser um doer. Não duvidamos do intertexto subjacente, subtexto, paratexto e parapeito deste apodo de Coelho a Relvas.

Doer é o fazedor, aquele que existe para fazer. Traduzir a palavra em português, idioma sempre plebeu se comparado com o dos nossos mais antigos aliados, pela expressão rasca «aquele que põe as mãos na massa» seria uma deselegância. Passos diz doer em homenagem a Relvas, claro, e ao Dr. Johnson de que Jorge Luís Borges tanto gostava. Borges, não confundir com o preclaro António, escreveu um texto sobre Los Hacedores e, como se depreende da sua famosa teoria sobre os predecessores, tal só queria dizer – descobrimo-lo agora! – que Relvas, sendo posterior, é um hacedor, predecessor do Dr. Johnson.

Vai bem, pois, o idioma português. Só não se percebe que os ilustríssimos governantes que nos couberam em sorte porfiem em desvalorizá-lo. Como stakeholders da língua, tal atitude é assim uma espécie de inside trading tendente à sua desvalorização. Não bastará já o downgrading diário, mesmo sem anglicismos e outros preciosos inserts?

Sobre o autor

Luís Carlos Patraquim (Maputo, 1953), jornalista, poeta, escritor e roteirista moçambicano, com diversificada obra publicada. Por exemplo, Monção (Edições 70 e Instituto Nacional do Livro e do Disco de Moçambique, 1980), A Inadiável Viagem (ed. Associação dos Escritores Moçambicanos, 1985), Mariscando Luas (Editora Vega, 1992), Lidemburgo Blues (Editorial Caminho, 1997), O Osso Côncavo e Outros Poemas (Lisboa, Editorial Caminho, 2005), Pneuma (Editorial Caminho, 2009) e A Canção de Zefanías Sforza (Porto Editora, 2010).