Uma redundância a menos - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Uma redundância a menos
Uma redundância a menos
História das palavras e sistemas de informação

«Uma redundância absolutamente essencial, além de ser uma redundância em si mesma, parece uma contradição.»

 

A propósito das negociações do Estado [português] com o SIRESP, que já levaram a empresa privada que o opera a ameaçar desligar partes dele este ano, o primeiro-ministro [António Costa] afirmou: «Uma coisa posso assegurar: o sistema de redundância não será desligado». Corram as negociações «a contento de ambas as partes (...) ou sem ser a contento», explicou, «há uma coisa de que o país não pode prescindir, é do funcionamento em pleno de um sistema cuja redundância é absolutamente essencial».

Uma redundância absolutamente essencial, além de ser uma redundância em si mesma, parece uma contradição. Aquilo que é redundante, em princípio, está a mais. Por isso se diz redundante. A palavra tem origem latina. Provém de unda, onda, e de undare, erguer-se em ondas. Daí para a ideia de transbordar, com a implicação metafórica de excesso, vai um pequeno passo. Com o tempo, a palavra passou a ser aplicada a muitas coisas diferentes, desde ideias e expressões linguísticas (há anos atrás, planos para o futuro, encarar de frente, outra alternativa) até funcionários públicos. Neste último caso, a redundância, em princípio, refere-se a uma duplicação de funções. Também aí o sentido do termo se estendeu — à própria consequência da alegada redundância. Na língua inglesa existe a expressão «make redundant», ‘tornar redundante’, para designar uma forma de despedimento, embora possam estar em causa outras formas de alguém não ser necessário.

Já no caso de sistemas de informação a redundância tem de facto que ver com duplicação e é, conforme disse o primeiro-ministro, uma característica essencial. Vimos isso o ano passado, quando o SIRESP não deu resposta adequada em situações de emergência pública. Para evitar que as falhas se repitam, ele adquiriu «equipamentos de redundância», ou backup que recorrem a satélites. Será a utilização destes que fica ameaçada se o Estado não liquidar milhões à empresa.

Ou seja, antes das emergências naturais, há uma emergência financeira a resolver. O Estado descarta responsabilidades, garantindo que «o parceiro privado, face à necessidade reconhecida quanto a dotar o sistema SIRESP de soluções de redundância, iniciou a implementação das soluções por iniciativa unilateral». Se as negociações sobre o sistema de backup não terminarem «a contento», o backup último é a nacionalização. 

Fonte

texto publicado na Revista do semanário português Expresso do dia 18 de maio de 2019,  com o título "Redundância".

Sobre o autor

Jornalista português.