Um país a tripar - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Um país a tripar

TU-ALINHAS?, assim mesmo mas em letras minúsculas, precedido de www. e seguido de .pt dá acesso ao site «infanto-juvenil» criado pelo Instituto da Droga da Toxicodependência (IDT) para jovens a partir dos 11 anos – quando «já não és criança, mas também ainda não és adulto».

José Manuel Fernandes, em editorial crítico e pedagógico no Público de quinta-feira [15 de Maio de 2008], zurziu forte e feio em quem alinhou na concepção e feitura dos conteúdos de um site que quase induz a conclusão de que beber um copo de vinho é pior do que snifar um risco de cocaína.

Com toda a razão.

Como toda a razão tem a Confederação das Associações de Pais e Encarregados de Educação ao manifestar a sua preocupação com o facto de, na prática, o site transmitir uma «imagem convidativa das drogas» ou «induzir a curiosidade por algumas experiências, em vez de ser preventor de comportamentos desviantes».

É claro que muito poucos dos que ‘já não são crianças, mas ainda não são adultos’ conseguirão perceber um décimo das mensagens que ali se pretende transmitir.

«Quando um sinal eléctrico chega à extremidade do axónio, as vesículas aderem à parede do neurónio. Isto liberta a serotonina no espaço (fenda sináptica) entre o axónio e as dendrites de outra célula». Dá para perceber? É só um exemplo.

Mesmo com ilustrações a acompanhar, qualquer miúdo que por acaso o leia ou consulte não resistirá a desvainar-se.

Se não sabe o que significa desvainar-se, o IDT esclarece-o: segundo o Dicionário de Calão – este de fácil consulta e percepção –, quer dizer «mudar de assunto». Que é o que os miúdos fazem em situações de desatino*.

Isto, claro, se não forem betinhos, caretas ou cocós. Que é quem como diz «aqueles que não consomem drogas, que são conservadores, desinteressantes e desprezíveis».

Esta associação de ‘quem não consome drogas’ a pessoa ‘desinteressante e desprezível’ foi o mote para a justificada investida pública contra a  iniciativa do IDT.

Que, por seu lado e pela voz do seu director, João Goulão, logo veio argumentar pela sua «utilidade» – mais vale um jovem consultar um glossário do que andar mal informado – e explicar que o dicionário foi «elaborado em colaboração com o Ministério da Educação» (mais grave ainda!).

Pois bem, ontem, no site do IDT, betinho já era apenas «conservador ou ‘arranjadinho’», Careta já só queria dizer «aquele que não consome drogas» e cocó passou a resumir-se a «betinho ou queque» (e queque é mesmo queque, porque não consta do ‘dicionário’).

Ora, tal como foram lestos a corrigir o dicionário, os autores desta obra deviam igualmente rectificar com urgência todos os conteúdos do site que, mesmo com pressupostos cientificamente certos, transmitem ideias e conclusões erradas. Ou simplesmente fechá-lo.

Se os destinatários são os jovens e o objectivos é a prevenção e o combate à droga, a perversão do resultado – como obviamente os autores do site não estavam a bezerrar* nem a bater um couro* quando o elaboraram – só pode resultar de irresponsável erro ou negligência grosseira.

Que o IDT devia reconhecer e rectificar, tal como José Sócrates assumiu o erro e por ele pediu desculpa depois de ter sido apanhado a fumar na viagem de avião para Caracas.

E ficar-se por aí – dispensando-se de seguir o exemplo do primeiro-ministro de desbroncar* os críticos como cambada de «calvinistas morais radicais».

Expressão, aliás, que o IDT bem podia incluir no seu dicionário como sabão* do betinho na ressaca* do desmame* depois de ter sido apanhado a curtir* por um chibo*.

Só de um país a tripar*.

*Dicionário do IDT:

Desatino, complicação ou conflito;

Bezerrar, estar sonolento sob o efeito da droga;

Bater um couro, contar uma história para obter dinheiro;

Desbroncar, clarificar a situação;

Sabão, sermão;

Ressaca, síndrome de abstinência, de carência, de privação;

Desmamar, deixar de consumir, desintoxicar-se;

Curtir, sentir prazer;

Chibo, denunciante;

Tripar, estar sob o efeito de alucinogéneos.

Fonte

crónica publicada no semanário “Sol” de 17 de Maio de 2008

Sobre o autor

Mário Ramires é um jornalista português que exerceu funções como tal no semanário Sol. Saiu deste jornal, onde também assumia o cargo de diretor, para integrar a administração da Newshold.