«Pontos de vista» - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Pontos de vista»
«Pontos de vista»
Uso e preceito

Que vem a ser ponto de vista? A gente lê e ouve e diz, a cada passo, ponto de vista para aqui, ponto de vista para acolá; mas uma coisa é falar, e outra saber o que se diz.

Há dias li eu, em certa prosa de um escritor nosso, esta frase que me caíu no goto: o meu ponto de vista continua sempre em pé. E pus-me a cismar que o ponto de vista dêste homem tem boas pernas, mas se arrisca a apanhar uma data de varizes para quando fôr velho. Mas ¿que diabo será um ponto de vista de pé, ou sentado, ou deitado, ou de cócoras?

Também já tenho lido e ouvido dizer assim: «Dentro do nosso ponto de vista as coisas vão bem», e neste caso o ponto de vista será uma espécie de caixa dentro do qual a gente pode ver coisas do arco da velha; mas então, ou as coisas estão dentro da caixa, ou a caixa não tem tampa, para a vista poder sair de dentro do ponto de vista para fora. 

Muita gente escreve: Debaixo dêste ponto de vista; mas, por esta maneira de escrever, se o ponto de vista é coisa debaixo da qual a gente se pôe para ver, ¿que é que nos fica por cima? Só se fôr um telhado ou telheiro, melhoramento óptimo para se poder gozar a vista do ponto até com tempo de chuva.

Eu bem sei que há muitas maneiras de dizer que não parecem lógicas, como  quando eu digo a algum aluno: Faça favor de ir à pedra – e a-final a pedra é de pau ou papelão.

São casos de inércia lingüística – persistência das mesmas expressões sob o domínio de circunstâncias que já não são as mesmas.

Continuamos a falar assim, porque assim nos entendemos perfeitamente e isso é o principal. A linguagem falada é coisa social e prática, e é muito prático não estarmos a mudar a linguagem cada vez que as técnicas inventam novas maneiras de fazer as coisas.

Mas a linguagem escrita, mais cuidada e portanto mais reflectida, exige por vezes saber por que escreve assim, e não de outro modo; quere conhecer a origem das maneiras de dizer para melhorar ou corrigir a expressão, regulando-a não só pelo hábito mas também pela razão, se fôr possível.

Ora o ponto de vista anda na nossa língua desde fins do século XVIII e veio de França como todos os meninos e quási tôdas as nossas palavras. D. Francisco de S. Luiz já trata dêle no seu Glossário e nos seguintes têrmos:

«PONTO DE VISTA» (Point de vue) É têrmo da arte de pintar e significa o ponto que o artista escolhe para pôr os objectos em perspectivas. Também se diz do lugar donde se pode ver bem o objecto, ou do lugar onde o objecto se deve colocar para ser melhor visto... Em outro sentido dizemos: Vem um objecto debaixo de diversos aspectos, ou por mais de uma face, etc.».

Assim falou o ilustre cardeal Saraiva e eu peço perdão aos seus manes, mas nunca escreverei debaixo de diversos aspectos, porque o aspecto é aparência, é semblante, é exterior e superficial, é aquilo que se vê e portanto não está por baixo. Posso ver um objecto por diversos aspectos, segundo diversos aspectos, mas nunca debaixo dêles.

Voltando porém ao ponto de vista, já vimos, guiados por D. Francisco de S. Luiz, que podia ser o ponto donde se vê ou o ponto onde está o que se vê. Ora ainda hoje os Franceses se não entendem sôbre o significado do seu point de vue. Ainda há pouco o académico Abel Hermant (o Lancelot que no diário Le Temps defende a língua francesa) dizia que o point de vue não é (ou não era) le lieu où lón se place pour voir, mais le point sur lequel la vue se dirige ou s'arrête. E cita como errada esta frase do grande Massilion: Voyez-vous de ce point de vue toute la grandeur de ce bíenfait?

Entre Abel Hermant e Massillon vou por êste, cujo estilo a crítica admira precisamente pela magnífica propriedade dos têrmos. Quanto ao nosso ponto de vista não pode haver dúvida de que se fixou com o sentido de sítio donde se vê, de-certo porque a palavra vista já tinha adquirido muito antes a significação de panorama ou païsagem. Assim o provam, em Portugal e no Brasil, dezenas, talvez centenas de lugares com os nomes de Boa Vista e Bela Vista. E temos também pelo menos uma Vista Alegre.

Se passarmos à língua inglesa veremos que ela procedeu neste caso exactamente como a nossa: o point of view é o lugar DONDE se vê, como indicam as seguintes frases, tiradas do Idiomatic English, de Kirkpatrick: The top of the tower is a fine point of view. He and I see things from different points of view.

Portanto, e para concluir:

1.º – Parece que, de acôrdo com a origem da própria expressão francesa e com a significação da nossa palavra vista, se deve escrever: DO ponto de vista, e não sob, debaixo ou no ponto de vista.

2.º – Ponto de vista significa significa derivadamente ou por metáfora o lado pelo qual se encara qualquer assunto e com êste sentido tornou-se vício para muita gente que já não se lembra da existência de outras expressões portuguesas variadas e perfeitamente sinónimas: por êste lado, por êste prisma, a esta luz, por âquele aspecto, etc.

3.º – Em frases de tom disparatado, como: O meu ponto de vista continua de pé, dá-se novo e abusivo desvio da significação primitiva, e o ponto de vista passa a sinónimo de opinião, parecer, versão, como nesta frase há pouco lida num diário: As duas testemunhas mantiveram cada uma o seu ponto de vista.

Quem raciocinar um nadinha não confunde o ponto de vista com a opinião ou o parecer. Estes formam-se no espírito depois de encarados o assunto POR todos os aspectos, ou DE vários pontos de vista.

O aspecto pertence aos objectos; o ponto de vista, como o miradoiro, é exterior a nós; a opinião forma-se em nós.

Quem medita no que diz ou lê não escreve coisas destas: O meu ponto de vista continua de pé. O meu mirante baseia-se em argumentos sólidos. A minha janela é irrespondível. Espero que você concorde com a minha varanda.

Novembro de 1939.

Fonte

In Língua e má língua (Livraria Bertrand, 3.ª edição, 1945) de Agostinho de Campos. Manteve-se a grafia original.

Sobre o autor

Agostinho de Campos (Porto, 1870 – Lisboa, 1944), professor universitário, jornalista e escritor português. Autor de diversas obras sobre temas pedagógicos, literários, políticos e linguísticos, de entre as quais se releva Glossário (1938), Língua e Má Língua (1944) e Falas sem Fio (postumamente, entre 1943 e 1946). Coligiu os 24 volumes de Paladinos da Linguagem, coletânea de autores clássicos portugueses e brasileiros.